Amélia Rodrigues (espírito)
A noite esplendente de círios estrelares banhava-se de suave luar, que se refletia sobre as águas tranqüilas do mar espelho.
O dia havia sido caracterizado por amena temperatura, enriquecido simultaneamente por incontáveis emoções.
Sucediam-se as experiências no convívio com as massas humanas, incessantes, com suas aflições que recordavam ondas contínuas espraiando-se nas areias imensas salpicadas de seixos e conchas variadas.
O hinário da Boa Nova era cantado na região por quase todas as bocas, mas, as interpretações variavam de acordo com as necessidades de cada qual.
Tinha-se a impressão que os Céus haviam descido à Terra e se fundiram umas nas outras as canções de amor e os lamentos clamorosos, que logo após silenciaram suas vozes desesperadas.
Jesus constituía, sem dúvida, o divisor das águas e daqueles dias turbulentos...
Os discípulos haviam acompanhado o Mestre durante o aconselhamento à uma desesperada mãe, que Lhe buscara o socorro, face à perda do filho amado que o anjo da morte arrebatara.
O desespero da suplicante logo se transformara em tranqüila e dúlcida alegria que lhe colocara luz brilhante nos olhos antes amortecidos pela aflição.
Como a morte sempre era temida e certamente detestada, utilizando-se da noite harmoniosa, na qual o Amigo parecia aguardar as inquietações dos discípulos, sentado diante do mar ornado da luz da lua, musicada pelos ventos suaves e pelo espreguiçar das vagas macias nas areias úmidas, formou-se o grupo gentil, cujo silêncio foi quebrado pela voz de João, o jovem que O amava com arrebatamento.
Havia uma doce magia no ar, que bailava no velário das sombras salpicadas de pingentes de prata...
— Como entender a morte, Mestre querido – indagou o discípulo ansioso – que sempre nos ameaça e apavora? Ante a sua inexorável fatalidade, nossos dias perdem a cor e a beleza, quase tirando-nos a razão de existir. Como entender a hedionda mensageira da sombra?
O nobre Guia desenhou tranqüilo sorriso na face banhada pelo argênteo luar, e respondeu com doçura:
A morte não é mensageira da sombra, nem do pavor, mas a missionária da vida imperecível. É a incompreendida intermediária entre Deus e os seres sencientes, encarregada de reconduzir os homens ao verdadeiro lar, após terem encerrado os seus compromissos na escola terrestre. Suavemente ou mediante ação abrupta, sem agressão nem receio, convoca reis e vassalos, mendigos e poderosos, crianças e anciãos, sadios ou enfermos ao despertar do sono fisiológico, fazendo-os volver ao país da consciência desperta, ao Grande Lar.
Portadora de alta responsabilidade, apresenta-se com a mesma nobreza a todos os seres, desvestindo-os das pesadas roupagens da ilusão, para a vivência da realidade inevitável. Sem o seu árduo trabalho a vida não teria qualquer sentido e o corpo se decomporia durante a existência, que se alongaria sem limite com tormentos inimagináveis... Para uns, todavia, é a misericórdia que chega em momento máximo, para outros, trata-se da libertação do cativeiro. Alguns a tomam como cruel inimiga, enquanto diversos a odeiam com rebeldia. Não obstante, impávida, faz-se instrumento da Vida para a grandeza do ser indestrutível.
— E o sofrimento, Senhor, que ela impõe – voltou, à carga, o discípulo receoso -, não dilacera a alma daqueles que ficam?! Morrer, afinal, dói?
O incomparável Benfeitor alongou o olhar pela noite feliz, e após breve reflexão, elucidou:
— A Casa de meu Pai tem infinitas moradas. Cada flor de luz que brilha ao longe é um pouso feliz que nos aguarda após vencidas as batalhas terrenas. Para alcançá-lo é necessário descer aos vales humanos nas roupas densas da matéria, a fim de tecer as delicadas asas de luz que nos erguerão aos seus planos quase divinos. Sem a morte compassiva e misericordiosa, isso não seria possível. Passo a passo, o viajante vence as distâncias no mundo físico. Da mesma forma, graças à morte-vida, à vida-após-a-morte desaparecem os abismos que medeiam entre os sublimes lares que voam na amplidão e a pequenina Terra onde nos encontramos.
Silenciando novamente por breves segundos, com específica entonação de voz, prosseguiu:
— Morrer não dói. O desprendimento é suave para os justos e inquietante para aqueles que são portadores de consciência culpada. O trânsito que leva à liberdade entre o cárcere e o horizonte largo, sem barreira, é sempre rico de expectativa e não de sofrimento. A marcha, porém, de cada qual, é resultado da conduta vivenciada no período do cativeiro. Quem considera o corpo como a única realidade, sofre decepção e angústia, medo de o abandonar e apego à forma em decomposição, fenômeno que se alonga por largo período, enquanto dure a alucinação. No entanto, quem o utilizou como educandário de iluminação para o espírito, deixa-o, qual borboleta ditosa que abandona o casulo pesado para flutuar na leve brisa do dia... A morte após o dever cumprido transforma-se em madrugada iridescente, que é o pórtico da imortalidade ditosa, onde o amor inunda o recém-liberto de alegria, sem dor nem saudade da caminhada terrestre.
É necessário viver de maneira que a morte lhe signifique prosseguimento, sem qualquer interrupção, conduzindo o ser no rumo da plenitude, da paz inefável.
Fez novo silêncio repassado de emoção, que igualmente dominava os ouvintes, logo dando continuidade:
— Eu vim para que todos tenhais vida em abundância no meu reino, que se amplia além das fronteiras da morte. Sem ela, não o alcançareis. Superando os desafios e vencidas as paixões, o ser se sutiliza e passa a habitar em mundo feliz, sem angústia ou ansiedade alguma.... A fim de o conseguir, torna-se indispensável que o amor e o dever diluam as sombras da ignorância que encarceram nas masmorras da carne o desavisado, sem permitir-lhe os vôos libertadores que anela realizar.
Quando se calou, os amigos tinham lágrimas que não se atreviam a descer da comporta dos olhos. Saudades de seres amados e gratidão pelo que lhes haviam oferecido, esperanças de vitórias futuras sobre as pesadas algemas dos desejos, das falsas necessidades e sonhos de felicidade, mesclavam-se nos seus sentimentos, e eles entenderam que o corpo é meio, é veículo de condução, mas o Espírito é o imperecível instrumento do Pai Criador, que nos aguarda nos penetrais do Infinito, e que a morte libera da injunção penosa.
A noite harmônica e perfumada, então dominada pelo lucilar dos astros e as ânsias da Natureza, insculpiu no ádito daqueles corações a mensagem da imortalidade, enquanto o Mestre os preparava para a madrugada resplandecente do futuro reino dos Céus.
(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, na sessão da noite de 14 de março de 2001, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.)
Este Blog destina-se a pessoas interessadas no estudo e na prática da verdade do evangelho de Jesus, sem alienação e temor.
sábado, 14 de agosto de 2010
Valorizemos o Nosso Dia
Antônio Moris Cury
É excelente o livro denominado "Para uso diário", ditado pelo Espírito Joanes através do médium escrevente J. Raul Teixeira, publicado pela Editora Fráter - Livros Espíritas.
Todos os seus trinta capítulos merecem ser lidos, estudados e refletidos, frase por frase, palavra por palavra, uma vez que versam sobre importantes questões de nosso dia-a-dia, em linguagem simples, acessível e direta, fazendo jus ao título escolhido.
O capítulo dois da referida obra denomina-se "Valorize o seu dia", e nele, em seu primeiro parágrafo, está dito que: "Cada dia corresponde a uma nova página escrita no livro da sua vida, onde você deverá escrever as melhores memórias" (encontrável na página 25 da primeira edição, 1999).
Com efeito, de fato, cada novo dia que se inicia é verdadeira página em branco no livro de nossa vida, já que nela poderemos escrever ações positivas, de variada ordem, de conformidade com a vontade, com a determinação e com a disciplina que conseguirmos empreender.
As 24 horas de cada dia, segundo a contagem humana do tempo, são iguais para todos; a diferença está no que cada um faça com elas. Se conseguirmos dedicar, por exemplo, uma única hora por dia para leitura e estudo, o que é pouco quando comparado com o tempo que usamos para assistir a telejornais ou a telenovelas, estaremos dando um bom passo no caminho do progresso intelectual, que engendra o progresso moral, com resultados altamente positivos ao cabo de pouco tempo. A informação é importante, o conhecimento é cumulativo e o cérebro trabalha mais e melhor quando municiado por novas idéias, novos argumentos, que decorrem naturalmente de toda leitura edificante.
Claro é que, nessas mesmas 24 horas, poderemos praticar inúmeras outras ações que as valorizarão sobremaneira, a começar pela mudança gradual de nossa postura, tornando-nos pessoas mais simpáticas, mais sorridentes, mais agradáveis, na medida em que sejamos mais tolerantes, mais pacientes, mais compreensivos, mais otimistas, mais confiantes, mais alegres, trazendo enormes benefícios a nós mesmos e também às pessoas que convivem conosco ou até mesmo àquelas que apenas cruzam os nossos caminhos.
Tal mudança comportamental não será difícil se soubermos, com convicção, de onde viemos, o que estamos fazendo aqui na Terra e para onde iremos, informações que se podem aliar às lições evangélicas de que colhemos o que plantamos e que a cada um será dado de conformidade com as suas obras, razão pela qual o Espírito Joanes, pela psicografia de J. Raul Teixeira, enfatiza e esclarece que: "... você não está senão no mundo que fez por merecer, com as situações que caracterizam a sua quadra evolutiva e com as pessoas do seu mesmo patamar moral, com ligeiras diferenças, facilmente observáveis" (obra citada, página 25).
Um pouco mais adiante e ainda na mesma página, o Benfeitor Espiritual recomenda: "Busque fazer novos amigos, mantendo, com carinho, os velhos companheiros. A amizade no mundo é como o beijo solar iluminando as flores, sem o qual elas tendem a murchar e fenecer".
Nada mais acertado. Até mesmo a sabedoria popular, que é fruto de longa observação dos fatos, conclui que "quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro".
Por isso, novas amizades devem ser buscadas, sem esquecimento dos velhos companheiros, que devem ser mantidos, carinhosamente. Cremos firmemente que a regra de ouro para fazer e manter amigos esteja baseada no respeito, respeito em todos os sentidos, respeito sempre.
Por fim, nestas ligeiras considerações sobre o texto antes referido, cumpre registrar o aconselhamento do autor espiritual: "E quando chegar ao fim o seu dia, vivido com maior ou menor dificuldade, ponha-se em meditação. Verifique onde é que você poderia ter sido melhor, em que itens deveria ter agido melhor, e, sem remorsos perniciosos, faça projetos de renovação para o dia seguinte, procurando levá-los seriamente" (página 26).
Santo Agostinho agia assim. Todos os dias, sistematicamente, antes de dormir, costumava fazer verdadeiro balanço de seu dia, com profunda reflexão, procurando enxergar onde errou, onde poderia ter sido melhor, onde acertou, etc.
E, naturalmente, todos nós estamos em condições de realizar tal levantamento, diariamente.
As dificuldades, as tribulações do dia-a-dia, são comuns a todos nós, que vivemos na Terra, um planeta de categoria inferior no Universo, de provas e de expiações, em que prevalecem o mal e a imperfeição, ainda.
Logo, a meditação é de fundamental importância para o nosso aperfeiçoamento, que deve ser buscado permanentemente, ainda que a pouco e pouco, a fim de que possamos crescer, intelectual e moralmente, renovando a nossa intimidade, para melhor, tornando-nos pessoas de bem e, exatamente por isso, mais felizes, desde agora.
(
É excelente o livro denominado "Para uso diário", ditado pelo Espírito Joanes através do médium escrevente J. Raul Teixeira, publicado pela Editora Fráter - Livros Espíritas.
Todos os seus trinta capítulos merecem ser lidos, estudados e refletidos, frase por frase, palavra por palavra, uma vez que versam sobre importantes questões de nosso dia-a-dia, em linguagem simples, acessível e direta, fazendo jus ao título escolhido.
O capítulo dois da referida obra denomina-se "Valorize o seu dia", e nele, em seu primeiro parágrafo, está dito que: "Cada dia corresponde a uma nova página escrita no livro da sua vida, onde você deverá escrever as melhores memórias" (encontrável na página 25 da primeira edição, 1999).
Com efeito, de fato, cada novo dia que se inicia é verdadeira página em branco no livro de nossa vida, já que nela poderemos escrever ações positivas, de variada ordem, de conformidade com a vontade, com a determinação e com a disciplina que conseguirmos empreender.
As 24 horas de cada dia, segundo a contagem humana do tempo, são iguais para todos; a diferença está no que cada um faça com elas. Se conseguirmos dedicar, por exemplo, uma única hora por dia para leitura e estudo, o que é pouco quando comparado com o tempo que usamos para assistir a telejornais ou a telenovelas, estaremos dando um bom passo no caminho do progresso intelectual, que engendra o progresso moral, com resultados altamente positivos ao cabo de pouco tempo. A informação é importante, o conhecimento é cumulativo e o cérebro trabalha mais e melhor quando municiado por novas idéias, novos argumentos, que decorrem naturalmente de toda leitura edificante.
Claro é que, nessas mesmas 24 horas, poderemos praticar inúmeras outras ações que as valorizarão sobremaneira, a começar pela mudança gradual de nossa postura, tornando-nos pessoas mais simpáticas, mais sorridentes, mais agradáveis, na medida em que sejamos mais tolerantes, mais pacientes, mais compreensivos, mais otimistas, mais confiantes, mais alegres, trazendo enormes benefícios a nós mesmos e também às pessoas que convivem conosco ou até mesmo àquelas que apenas cruzam os nossos caminhos.
Tal mudança comportamental não será difícil se soubermos, com convicção, de onde viemos, o que estamos fazendo aqui na Terra e para onde iremos, informações que se podem aliar às lições evangélicas de que colhemos o que plantamos e que a cada um será dado de conformidade com as suas obras, razão pela qual o Espírito Joanes, pela psicografia de J. Raul Teixeira, enfatiza e esclarece que: "... você não está senão no mundo que fez por merecer, com as situações que caracterizam a sua quadra evolutiva e com as pessoas do seu mesmo patamar moral, com ligeiras diferenças, facilmente observáveis" (obra citada, página 25).
Um pouco mais adiante e ainda na mesma página, o Benfeitor Espiritual recomenda: "Busque fazer novos amigos, mantendo, com carinho, os velhos companheiros. A amizade no mundo é como o beijo solar iluminando as flores, sem o qual elas tendem a murchar e fenecer".
Nada mais acertado. Até mesmo a sabedoria popular, que é fruto de longa observação dos fatos, conclui que "quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro".
Por isso, novas amizades devem ser buscadas, sem esquecimento dos velhos companheiros, que devem ser mantidos, carinhosamente. Cremos firmemente que a regra de ouro para fazer e manter amigos esteja baseada no respeito, respeito em todos os sentidos, respeito sempre.
Por fim, nestas ligeiras considerações sobre o texto antes referido, cumpre registrar o aconselhamento do autor espiritual: "E quando chegar ao fim o seu dia, vivido com maior ou menor dificuldade, ponha-se em meditação. Verifique onde é que você poderia ter sido melhor, em que itens deveria ter agido melhor, e, sem remorsos perniciosos, faça projetos de renovação para o dia seguinte, procurando levá-los seriamente" (página 26).
Santo Agostinho agia assim. Todos os dias, sistematicamente, antes de dormir, costumava fazer verdadeiro balanço de seu dia, com profunda reflexão, procurando enxergar onde errou, onde poderia ter sido melhor, onde acertou, etc.
E, naturalmente, todos nós estamos em condições de realizar tal levantamento, diariamente.
As dificuldades, as tribulações do dia-a-dia, são comuns a todos nós, que vivemos na Terra, um planeta de categoria inferior no Universo, de provas e de expiações, em que prevalecem o mal e a imperfeição, ainda.
Logo, a meditação é de fundamental importância para o nosso aperfeiçoamento, que deve ser buscado permanentemente, ainda que a pouco e pouco, a fim de que possamos crescer, intelectual e moralmente, renovando a nossa intimidade, para melhor, tornando-nos pessoas de bem e, exatamente por isso, mais felizes, desde agora.
(
O Dever da Propagação
Orson Peter Carrara
Entre tantos chamamentos ao trabalho de divulgação espírita, há uma mensagem inserida por Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo com o título A felicidade não é deste mundo (capítulo V, item 20), que chama a atenção pela força de expressão em determinado trecho. Solicito ao leitor ler e reler com muita atenção o trecho referido, que transcrevemos: "Deveis todos consagrar-vos à propagação desse Espiritismo que já deu começo à vossa própria regeneração. Corre-vos o dever de fazer que os vossos irmãos participem dos raios da sagrada luz. Mãos, portanto, à obra, meus muito queridos filhos!".
Que belo trecho! Que convite mais direto! Que sagrada luz realmente a Doutrina dos Espíritos! Quantas vezes já não repassamos os olhos por aquela mensagem e não havíamos notado nas "entrelinhas" esta bela expressão assinada pelo espírito François-Nicolas-Madeleine, cardeal Morlot, em mensagem ditada em Paris em 1863.
As alegrias e o bem que nos têm proporcionado o Espiritismo poderão igualmente iluminar os lares e os corações de nossos irmãos que ainda não tiveram acesso ou ainda não conhecem esses ensinamentos. E a quem cabe o papel da distribuição dessas luzes, senão aos próprios espíritas em nossos grupos?
Estas considerações todas surgem em virtude da oportunidade da campanha lançada pela Associação dos Divulgadores do Espiritismo no Estado do Paraná - ADE-PR - em favor da imprensa espírita. Objetivando estimular a leitura, distribuição, comentário, divulgação e inclusive assinaturas de nossos veículos de imprensa espírita (e claro visando também a viabilidade, manutenção e sobrevivência desses órgãos), a campanha lançada no Paraná no último 29 de julho espera contagiar o país. Afinal, é ela, a imprensa, que leva a informação, a conscientização e forma - ao lado do estudo doutrinário - o espírita consciente e participativo.
Já não é hora de nossas Instituições Espíritas voltarem seus olhos para os jornais e revistas espíritas em circulação - distribuindo-os e comentando o conteúdo dessas publicações -, estimulando o público a assinar revistas e jornais espíritas, ao invés de relegá-los ao abandono e ao mofo? Quantas informações preciosas não estão lá, nas páginas idealisticamente elaboradas e mantidas a custo de sacrifícios...
Como desprezar isto? Como esquecer o esforço da imprensa?
Surgem inúmeras desculpas: o povo não lê, o povo não tem dinheiro, estamos distribuindo cestas básicas. Tudo muito certo e coerente. Mas... A divulgação, o estudo e a participação precisam ser estimulados. O público freqüentador fará o que for estimulado pelo dirigente. Se for valorizado na Casa o jornal, a revista, o público ou o grupo trabalhador dará a estes órgãos a atenção e consideração que eles efetivamente merecem.
Apenas isto está faltando: a adesão do dirigente.
Não veja o jornal ou a revista como algo dispensável. Pense no valor das publicações, nas jóias que estão em suas páginas. Pense nos caminhos que eles vão abrir... Isto tornará o espírita consciente, participativo...
É notável a iniciativa da ADE-PR! Nossos cumprimentos aos companheiros!
Vamos prestar atenção nela. Vamos reler o conselho do espírito acima citado e começar a olhar com mais amor o apoio que todos devemos aos nossos órgãos de imprensa, como este jornal, por exemplo...
Entre tantos chamamentos ao trabalho de divulgação espírita, há uma mensagem inserida por Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo com o título A felicidade não é deste mundo (capítulo V, item 20), que chama a atenção pela força de expressão em determinado trecho. Solicito ao leitor ler e reler com muita atenção o trecho referido, que transcrevemos: "Deveis todos consagrar-vos à propagação desse Espiritismo que já deu começo à vossa própria regeneração. Corre-vos o dever de fazer que os vossos irmãos participem dos raios da sagrada luz. Mãos, portanto, à obra, meus muito queridos filhos!".
Que belo trecho! Que convite mais direto! Que sagrada luz realmente a Doutrina dos Espíritos! Quantas vezes já não repassamos os olhos por aquela mensagem e não havíamos notado nas "entrelinhas" esta bela expressão assinada pelo espírito François-Nicolas-Madeleine, cardeal Morlot, em mensagem ditada em Paris em 1863.
As alegrias e o bem que nos têm proporcionado o Espiritismo poderão igualmente iluminar os lares e os corações de nossos irmãos que ainda não tiveram acesso ou ainda não conhecem esses ensinamentos. E a quem cabe o papel da distribuição dessas luzes, senão aos próprios espíritas em nossos grupos?
Estas considerações todas surgem em virtude da oportunidade da campanha lançada pela Associação dos Divulgadores do Espiritismo no Estado do Paraná - ADE-PR - em favor da imprensa espírita. Objetivando estimular a leitura, distribuição, comentário, divulgação e inclusive assinaturas de nossos veículos de imprensa espírita (e claro visando também a viabilidade, manutenção e sobrevivência desses órgãos), a campanha lançada no Paraná no último 29 de julho espera contagiar o país. Afinal, é ela, a imprensa, que leva a informação, a conscientização e forma - ao lado do estudo doutrinário - o espírita consciente e participativo.
Já não é hora de nossas Instituições Espíritas voltarem seus olhos para os jornais e revistas espíritas em circulação - distribuindo-os e comentando o conteúdo dessas publicações -, estimulando o público a assinar revistas e jornais espíritas, ao invés de relegá-los ao abandono e ao mofo? Quantas informações preciosas não estão lá, nas páginas idealisticamente elaboradas e mantidas a custo de sacrifícios...
Como desprezar isto? Como esquecer o esforço da imprensa?
Surgem inúmeras desculpas: o povo não lê, o povo não tem dinheiro, estamos distribuindo cestas básicas. Tudo muito certo e coerente. Mas... A divulgação, o estudo e a participação precisam ser estimulados. O público freqüentador fará o que for estimulado pelo dirigente. Se for valorizado na Casa o jornal, a revista, o público ou o grupo trabalhador dará a estes órgãos a atenção e consideração que eles efetivamente merecem.
Apenas isto está faltando: a adesão do dirigente.
Não veja o jornal ou a revista como algo dispensável. Pense no valor das publicações, nas jóias que estão em suas páginas. Pense nos caminhos que eles vão abrir... Isto tornará o espírita consciente, participativo...
É notável a iniciativa da ADE-PR! Nossos cumprimentos aos companheiros!
Vamos prestar atenção nela. Vamos reler o conselho do espírito acima citado e começar a olhar com mais amor o apoio que todos devemos aos nossos órgãos de imprensa, como este jornal, por exemplo...
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
A Diferença Entre Crer e Ter Fé
Equipe Consciesp
“Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia.
Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé"
O notável professor, filósofo e humanista brasileiro, Huberto Rohden, em um de seus oportunos comentários inseridos no livro “A Mensagem Viva do Cristo”, obra que compreende a tradução feita por ele mesmo dos quatro evangelhos, diretamente do grego do primeiro século, convida-nos a refletir sobre a significativa distinção entre crer e ter fé. Para ele, a não compreensão dessa questão tem deturpado a teologia e trazido enorme prejuízo à mensagem do Cristo ao longo desses 2000 anos.
Escreve ele:
“Desde os primeiros séculos do Cristianismo, quando o texto grego do Evangelho foi traduzido para o latim, principiou a funesta identificação de crer com ter fé. A palavra grega para fé é pistis, cujo verbo é pisteuein. Infelizmente, o substantivo latino fides, o correspondente a pistis, não tem verbo e assim, os tradutores latinos se viram obrigados a recorrer a um verbo de outro radical para exprimir o grego pisteuein, ter fé. O verbo latino que substituiu o grego pisteuein é credere, que em português deu crer. Nenhuma das cinco línguas neo latinas — português, espanhol, italiano, francês, rumeno — possui verbo derivado do substantivo fides; fé; todas essas línguas são obrigadas a recorrer a um verbo derivado de credere. Ora, a palavra pistis ou fides significa originariamente harmonia, sintonia, consonância. Ter fé é estabelecer ou ter sintonia, harmonia entre o espírito humano e o espírito divino.”
Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia
Para o ilustre filósofo, aí está um dos maiores problemas que em muito vem prejudicando a teologia e, para explicar a diferença de significado entre uma coisa e outra, estabelece ele o seguinte paralelo ilustrativo: “Um receptor de rádio só recebe a onde eletrônica emitida pela estação emissora, quando o receptor está sintonizado ou afinado perfeitamente com a freqüência da emissora. Se a emissora, por exemplo, emite uma onda de freqüência 100, o meu receptor só reage a essa onda e recebe-a quando está sintonizado com a freqüência 100. Só neste caso, o meu receptor tem fé, fidelidade, harmonia; fideliza com a emissora”.
Dentro desse contexto, “se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé. Ter fé é estar em sintonia com Deus, tanto pela consciência como também pela vivência, ao passo que um homem sem sintonia com Deus pela consciência e pela vivência, pela mística e pela ética, pode crer vagamente em Deus. Crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência”, argumenta o professor Rohden.
Salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus
Para ele, a conhecida frase “quem crer será salvo, quem não crer será condenado”, é absurda e blasfema no sentido em que ela é geralmente usada pelos teólogos. No entanto, “se lhe dermos o sentido verdadeiro ‘quem tiver fé será salvo’ ela está certa, porque salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus”.
Em sua opinião, de sincero buscador, erudito e filósofo espiritualista “a substituição de ter fé por crer há quase 2000 anos, está desgraçando a teologia, deturpando profundamente a mensagem do Cristo”.
“Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia.
Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé"
O notável professor, filósofo e humanista brasileiro, Huberto Rohden, em um de seus oportunos comentários inseridos no livro “A Mensagem Viva do Cristo”, obra que compreende a tradução feita por ele mesmo dos quatro evangelhos, diretamente do grego do primeiro século, convida-nos a refletir sobre a significativa distinção entre crer e ter fé. Para ele, a não compreensão dessa questão tem deturpado a teologia e trazido enorme prejuízo à mensagem do Cristo ao longo desses 2000 anos.
Escreve ele:
“Desde os primeiros séculos do Cristianismo, quando o texto grego do Evangelho foi traduzido para o latim, principiou a funesta identificação de crer com ter fé. A palavra grega para fé é pistis, cujo verbo é pisteuein. Infelizmente, o substantivo latino fides, o correspondente a pistis, não tem verbo e assim, os tradutores latinos se viram obrigados a recorrer a um verbo de outro radical para exprimir o grego pisteuein, ter fé. O verbo latino que substituiu o grego pisteuein é credere, que em português deu crer. Nenhuma das cinco línguas neo latinas — português, espanhol, italiano, francês, rumeno — possui verbo derivado do substantivo fides; fé; todas essas línguas são obrigadas a recorrer a um verbo derivado de credere. Ora, a palavra pistis ou fides significa originariamente harmonia, sintonia, consonância. Ter fé é estabelecer ou ter sintonia, harmonia entre o espírito humano e o espírito divino.”
Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia
Para o ilustre filósofo, aí está um dos maiores problemas que em muito vem prejudicando a teologia e, para explicar a diferença de significado entre uma coisa e outra, estabelece ele o seguinte paralelo ilustrativo: “Um receptor de rádio só recebe a onde eletrônica emitida pela estação emissora, quando o receptor está sintonizado ou afinado perfeitamente com a freqüência da emissora. Se a emissora, por exemplo, emite uma onda de freqüência 100, o meu receptor só reage a essa onda e recebe-a quando está sintonizado com a freqüência 100. Só neste caso, o meu receptor tem fé, fidelidade, harmonia; fideliza com a emissora”.
Dentro desse contexto, “se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé. Ter fé é estar em sintonia com Deus, tanto pela consciência como também pela vivência, ao passo que um homem sem sintonia com Deus pela consciência e pela vivência, pela mística e pela ética, pode crer vagamente em Deus. Crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência”, argumenta o professor Rohden.
Salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus
Para ele, a conhecida frase “quem crer será salvo, quem não crer será condenado”, é absurda e blasfema no sentido em que ela é geralmente usada pelos teólogos. No entanto, “se lhe dermos o sentido verdadeiro ‘quem tiver fé será salvo’ ela está certa, porque salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus”.
Em sua opinião, de sincero buscador, erudito e filósofo espiritualista “a substituição de ter fé por crer há quase 2000 anos, está desgraçando a teologia, deturpando profundamente a mensagem do Cristo”.
Elefante Branco
Richard Simonetti
Mateus, 13-44
Em várias passagens Jesus reporta-se ao Reino dos Céus, ou o Reino de Deus, ou, simplesmente, O Reino.
São expressões equivalentes.
A teologia medieval concebeu que Jesus veio instalá-lo, o que sugere que a Terra não estava sob a regência divina.
Permanecia acéfala?
Um tanto estranho, amigo leitor, se considerarmos que Deus é o Criador, o Senhor supremo, presença imanente, cujas leis têm vigência em todos os quadrantes do Universo.
Não encontraremos uma só galáxia, um só sistema solar, um só planeta, um só recanto, por mais remoto, onde o Todo-Poderoso esteja ausente.
Ele é a consciência cósmica do Universo. Permanece em tudo e em todos. Estamos mergulhados nas bênçãos divinas, como peixes no oceano.
***
Se nascemos no Brasil, se aqui vivemos, legalmente somos cidadãos brasileiros.
Mas, sob o ponto de vista moral, essa cidadania só será legitimada pelo empenho em cumprir as leis do país, o que implica na observância de nossos deveres perante a comunidade, zelando por seu equilíbrio e bem-estar.
Algo semelhante acontece com o Reino.
Se há um Reino Universal regido por Deus, somos todos seus súditos.
Não obstante, isso pouco significa, se não nos preocupamos em cumprir o que o Eterno espera de nós.
Por isso Jesus diz (Lucas, 17:20-21):
O Reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós.
O problema, então, não é entrar no Reino. Vivemos nele.
O problema é o Reino entrar em nós.
***
Em várias parábolas Jesus nos diz como alcançar essa realização.
No tempo antigo não havia Bancos para depositar bens amoedados; então, as pessoas os escondiam em terrenos isolados, de sua propriedade.
Não raro, esses tesouros se perdiam pelo falecimento do proprietário. Quem os encontrasse podia entrar na posse deles, desde que comprasse as respectivas glebas.
Havia pessoas que se especializavam nessa lucrativa atividade, caçadores de tesouros, que ainda hoje povoam o imaginário popular.
Jesus usa essa imagem para nos contar sugestiva e breve parábola.
O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo.
Um homem o encontra e esconde-o novamente.
Feliz, vende tudo o que tem e compra aquele campo.
O Reino seria aquele estado de paz, de tranqüilidade e alegria, no pleno cumprimento das leis divinas, habilitando-nos a desfrutar as bênçãos de Deus.
No simbolismo evangélico, situa-se como um tesouro oculto em recôndita região de nossa consciência, no solo de nossas cogitações existenciais.
Custa caro. Para sua aquisição, que equivale à posse de nós mesmos, imperioso nos desfaçamos de inúmeros bens, entre aspas, porquanto mais atrapalham do que ajudam.
São elefantes brancos.
***
No antigo reino de Sião, atual Tailândia, o raro elefante branco era animal sagrado.
Quando o rei queria punir alguém, oferecia-lhe um. O súdito sentia-se honrado, mas logo percebia tratar-se de um “presente de grego”.
Deveria dispensar sofisticados cuidados com o animal. Alimentá-lo com iguarias caras, colocar-lhe enfeites, ter empregados para cuidar dele…
Acabava arruinado.
Algo semelhante ocorre em nossa vida.
Há elefantes brancos em nosso caminho.
Temos satisfação com eles, em princípio, mas logo percebemos que nos causam prejuízos imensos.
Alguns deles:
• Ambição
Riqueza, poder, destaque social, prestígio, constituem o anseio de muitos.
O ambicioso só tem olhos para aquelas realizações.
Toma gosto pelos bens materiais que, sendo apenas parte da vida, convertem-se para ele em finalidade dela.
Deixa de ser dono de seu dinheiro.
Situa-se escravo dele.
Rico materialmente, mendigo de paz.
Parafraseando Jesus, podemos dizer que é mais fácil esse elefante branco passar pelo fundo de uma agulha do que seu proprietário entrar no Reino.
• Vício
Em princípio, oferece o Céu.
O fumo tranqüiliza.
O álcool desinibe.
As drogas produzem euforia.
Mas é céu artificial, precário, que nos leva, invariavelmente, ao inferno da dependência.
Enquanto o usuário está sob seu efeito é ótimo.
Logo, porém, o corpo cobra novas doses, submetendo-o a angústias e tensões terríveis.
Assim, oscila entre o céu e o inferno.
Cada vez menos céu; cada vez mais inferno, à medida que se amplia a dependência. E nele se instala de vez, quando retorna ao plano espiritual, antes do tempo, expulso do próprio corpo que destruiu.
Em terrível destrambelho, sofre horrivelmente, em longos e dolorosos estágios em regiões lúgubres e trevosas, habitadas por companheiros de infortúnio.
Ao reencarnar, os desajustes provocados em seu corpo espiritual se refletirão na nova estrutura física, dando origem a males variados, dolorosos, angustiantes, mas necessários.
Funcionam como válvulas de escoamento das impurezas de que se impregnou, ao mesmo tempo em que o ajudam a superar entranhados condicionamentos, que fatalmente o induziriam a retomar o vício.
Se o viciado tivesse a mínima noção do futuro dantesco que o espera, ficaria horrorizado.
Haveria de lutar com todas as forças de sua alma para livrar-se desse comprometedor elefante branco.
• Sexo.
Dádiva divina, é por intermédio dele que entramos na vida terrestre, além de favorecer gratificante momento de intimidade entre o homem e a mulher.
Entretanto, vivemos tempos perigosos, de liberdade sexual confundida com libertinagem. O sexo deixou de ser parte do amor para transformar-se no amor por inteiro.
Casais que mal se conhecem falam em “fazer amor”, pretendendo uma comunhão sexual sem compromisso, em lamentável promiscuidade.
É um tremendo elefante branco!
Oferece euforia em princípio, mas cobra muita inquietação depois, e perene insatisfação.
Com a troca constante de parceiros e a busca desenfreada de prazer, o indivíduo cai no desvairo sexual, envolvendo-se em comprometedoras perversões.
• Paixão
Fixado em alguém, empolgado pela comunhão carnal, o apaixonado estende as raízes de sua estabilidade física e psíquica no objeto de seus desejos e passa a viver em função dele.
Se a relação não dá certo e vem o rompimento, é uma tragédia. Suicídios, crimes passionais, loucuras variadas, são mera decorrência.
Quando o amor deixa de ser um ato de doação, rebaixado ao mero desejo de posse, em que pretendemos que o ser amado submeta-se aos nossos caprichos, transforma-se em voraz elefante branco que nos exaure e desajusta.
***
Não nos tornaremos santos do dia para a noite, campeões do Evangelho, apóstolos do Bem, mesmo porque a Natureza não dá saltos.
Consideremos, porém, em nosso próprio benefício, que é preciso avaliar se não estamos sustentando insaciáveis elefantes brancos, que nos empobrecem.
Com eles fica impossível o cultivo de aspirações superiores, no solo sagrado do coração, para a conquista do almejado tesouro divino.
Mateus, 13-44
Em várias passagens Jesus reporta-se ao Reino dos Céus, ou o Reino de Deus, ou, simplesmente, O Reino.
São expressões equivalentes.
A teologia medieval concebeu que Jesus veio instalá-lo, o que sugere que a Terra não estava sob a regência divina.
Permanecia acéfala?
Um tanto estranho, amigo leitor, se considerarmos que Deus é o Criador, o Senhor supremo, presença imanente, cujas leis têm vigência em todos os quadrantes do Universo.
Não encontraremos uma só galáxia, um só sistema solar, um só planeta, um só recanto, por mais remoto, onde o Todo-Poderoso esteja ausente.
Ele é a consciência cósmica do Universo. Permanece em tudo e em todos. Estamos mergulhados nas bênçãos divinas, como peixes no oceano.
***
Se nascemos no Brasil, se aqui vivemos, legalmente somos cidadãos brasileiros.
Mas, sob o ponto de vista moral, essa cidadania só será legitimada pelo empenho em cumprir as leis do país, o que implica na observância de nossos deveres perante a comunidade, zelando por seu equilíbrio e bem-estar.
Algo semelhante acontece com o Reino.
Se há um Reino Universal regido por Deus, somos todos seus súditos.
Não obstante, isso pouco significa, se não nos preocupamos em cumprir o que o Eterno espera de nós.
Por isso Jesus diz (Lucas, 17:20-21):
O Reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós.
O problema, então, não é entrar no Reino. Vivemos nele.
O problema é o Reino entrar em nós.
***
Em várias parábolas Jesus nos diz como alcançar essa realização.
No tempo antigo não havia Bancos para depositar bens amoedados; então, as pessoas os escondiam em terrenos isolados, de sua propriedade.
Não raro, esses tesouros se perdiam pelo falecimento do proprietário. Quem os encontrasse podia entrar na posse deles, desde que comprasse as respectivas glebas.
Havia pessoas que se especializavam nessa lucrativa atividade, caçadores de tesouros, que ainda hoje povoam o imaginário popular.
Jesus usa essa imagem para nos contar sugestiva e breve parábola.
O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo.
Um homem o encontra e esconde-o novamente.
Feliz, vende tudo o que tem e compra aquele campo.
O Reino seria aquele estado de paz, de tranqüilidade e alegria, no pleno cumprimento das leis divinas, habilitando-nos a desfrutar as bênçãos de Deus.
No simbolismo evangélico, situa-se como um tesouro oculto em recôndita região de nossa consciência, no solo de nossas cogitações existenciais.
Custa caro. Para sua aquisição, que equivale à posse de nós mesmos, imperioso nos desfaçamos de inúmeros bens, entre aspas, porquanto mais atrapalham do que ajudam.
São elefantes brancos.
***
No antigo reino de Sião, atual Tailândia, o raro elefante branco era animal sagrado.
Quando o rei queria punir alguém, oferecia-lhe um. O súdito sentia-se honrado, mas logo percebia tratar-se de um “presente de grego”.
Deveria dispensar sofisticados cuidados com o animal. Alimentá-lo com iguarias caras, colocar-lhe enfeites, ter empregados para cuidar dele…
Acabava arruinado.
Algo semelhante ocorre em nossa vida.
Há elefantes brancos em nosso caminho.
Temos satisfação com eles, em princípio, mas logo percebemos que nos causam prejuízos imensos.
Alguns deles:
• Ambição
Riqueza, poder, destaque social, prestígio, constituem o anseio de muitos.
O ambicioso só tem olhos para aquelas realizações.
Toma gosto pelos bens materiais que, sendo apenas parte da vida, convertem-se para ele em finalidade dela.
Deixa de ser dono de seu dinheiro.
Situa-se escravo dele.
Rico materialmente, mendigo de paz.
Parafraseando Jesus, podemos dizer que é mais fácil esse elefante branco passar pelo fundo de uma agulha do que seu proprietário entrar no Reino.
• Vício
Em princípio, oferece o Céu.
O fumo tranqüiliza.
O álcool desinibe.
As drogas produzem euforia.
Mas é céu artificial, precário, que nos leva, invariavelmente, ao inferno da dependência.
Enquanto o usuário está sob seu efeito é ótimo.
Logo, porém, o corpo cobra novas doses, submetendo-o a angústias e tensões terríveis.
Assim, oscila entre o céu e o inferno.
Cada vez menos céu; cada vez mais inferno, à medida que se amplia a dependência. E nele se instala de vez, quando retorna ao plano espiritual, antes do tempo, expulso do próprio corpo que destruiu.
Em terrível destrambelho, sofre horrivelmente, em longos e dolorosos estágios em regiões lúgubres e trevosas, habitadas por companheiros de infortúnio.
Ao reencarnar, os desajustes provocados em seu corpo espiritual se refletirão na nova estrutura física, dando origem a males variados, dolorosos, angustiantes, mas necessários.
Funcionam como válvulas de escoamento das impurezas de que se impregnou, ao mesmo tempo em que o ajudam a superar entranhados condicionamentos, que fatalmente o induziriam a retomar o vício.
Se o viciado tivesse a mínima noção do futuro dantesco que o espera, ficaria horrorizado.
Haveria de lutar com todas as forças de sua alma para livrar-se desse comprometedor elefante branco.
• Sexo.
Dádiva divina, é por intermédio dele que entramos na vida terrestre, além de favorecer gratificante momento de intimidade entre o homem e a mulher.
Entretanto, vivemos tempos perigosos, de liberdade sexual confundida com libertinagem. O sexo deixou de ser parte do amor para transformar-se no amor por inteiro.
Casais que mal se conhecem falam em “fazer amor”, pretendendo uma comunhão sexual sem compromisso, em lamentável promiscuidade.
É um tremendo elefante branco!
Oferece euforia em princípio, mas cobra muita inquietação depois, e perene insatisfação.
Com a troca constante de parceiros e a busca desenfreada de prazer, o indivíduo cai no desvairo sexual, envolvendo-se em comprometedoras perversões.
• Paixão
Fixado em alguém, empolgado pela comunhão carnal, o apaixonado estende as raízes de sua estabilidade física e psíquica no objeto de seus desejos e passa a viver em função dele.
Se a relação não dá certo e vem o rompimento, é uma tragédia. Suicídios, crimes passionais, loucuras variadas, são mera decorrência.
Quando o amor deixa de ser um ato de doação, rebaixado ao mero desejo de posse, em que pretendemos que o ser amado submeta-se aos nossos caprichos, transforma-se em voraz elefante branco que nos exaure e desajusta.
***
Não nos tornaremos santos do dia para a noite, campeões do Evangelho, apóstolos do Bem, mesmo porque a Natureza não dá saltos.
Consideremos, porém, em nosso próprio benefício, que é preciso avaliar se não estamos sustentando insaciáveis elefantes brancos, que nos empobrecem.
Com eles fica impossível o cultivo de aspirações superiores, no solo sagrado do coração, para a conquista do almejado tesouro divino.
Dogmatismo e Espiritismo
Sérgio Biagi Gregório
1. INTRODUÇÃO
O dogmatismo está presente em muitos atos de nossa vida. Nosso propósito é refletir sobre o significado e a ocorrência do comportamento dogmático, a fim de nos afastarmos do erro, e conduzirmos o nosso pensamento para uma atitude crítica da realidade em que estivermos inseridos.
2. CONCEITO
Dogma – do grego dokein – significa opinião certa, decreto, axioma.
Dogma (religião) – É ponto fundamental e indiscutível de uma doutrina religiosa. No Cristianismo, chamam-se dogmas as verdades reveladas, propostas pela suprema autoridade da Igreja como artigos de fé, que devem ser aceitos por todos os seus membros. (Santos, 1965)
Dogma (pejorativamente) – Chamam-se dogmas todas e quaisquer afirmações que apenas expressam opinião, sem os necessários fundamentos, mas que são proclamados como verdades indiscutíveis. (Santos, 1965)
Dogmatismo – Atitude do espírito que consiste em pensar e em se exprimir em função de dogmas, ou seja, de verdades consideradas definitivas, e que não podem ser sujeitas a discussão. (Legrand, 1982). Entre os gregos era a posição filosófica que se opunha ao ceticismo (exame, dúvida).
Dogmática – Parte da teologia que tem por objeto a exposição dos dogmas.
3. DOGMAS DA RELIGIÃO CATÓLICA
O Concílio Ecumênico, Assembléia de Bispos e principais dignitários da Igreja, sob a presidência papal, tem por objeto a formulação dos artigos de fé e moral (dogmas) com o caráter de infalibilidade. O Dogma da Infalibilidade Papal, o Dogma da Imaculada Conceição, o Dogma das Penas Eternas, o Dogma do Pecado Original etc. são alguns desses dogmas.
Dentre tais dogmas, o Dogma da Santíssima Trindade merece destaque especial. Segundo este dogma, há três pessoas em Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. São distintas, iguais, e por conseqüência coeternas, isto é, igualmente eternas e consubstanciadas numa só e indivisível natureza. Cada uma destas três pessoas é realmente Deus. O Pai não tem princípio; o Filho é originado pelo Pai desde toda a eternidade; procede assim dele por geração, ou, como se dizia outrora, por gênese; o Espírito Santo procede do Pai e do Filho como de um só princípio. Entre estas três pessoas existe ordem de origem, mas não há nem subordinação nem dependência, nem prioridade de tempo ou de excelência. A palavra Trindade não se encontra no Novo Testamento, nem nos escritos dos padres apostólicos. Contudo, segundo os teólogos, o mistério estava arraigado na primitiva comunidade cristã, “como o demonstra a fórmula do Batismo”. Mais tarde, para combater a doutrina de Ário, que impugnava a divindade de Cristo, a Igreja declarou a consubstancialidade do Pai e do Filho no Concílio de Nicéia (325) e a divindade do Espírito Santo no Concílio de Constantinopla (381). (EDIPE, 1987)
Observação: não importa se a razão não consegue entender já que é um princípio aceito pela fé – e seu fundamento é a revelação divina.
4. COMPORTAMENTO DOGMÁTICO
Bornheim, em Introdução ao Filosofar, estuda o comportamento dogmático. Quer saber como o homem passa de um estado pré-crítico para uma atitude crítica. O problema do autor consiste em analisar o que Husserl chama de “postura natural”, isto é, a concepção da realidade própria a este viver natural, metafisicamente ingênuo, desprovido de um sentido mais profundo de problematização. Husserl chama esta compreensão implícita do mundo de Generalthesis, de “tese geral”.
Dentro da postura dogmática esta “tese geral” nunca é posta em dúvida, e é exatamente por esta razão que pode ser denominada de dogmática. Nesse sentido, todas as atividades humanas, com exceção da filosófica, partem de uma tese geral, que deve ser aceita como premissa. Podemos por em dúvida alguns aspectos desta “tese geral” mas não a tese em si. De acordo com Husserl, mesmo a atividade científica, seja da natureza ou do espírito, se processa dentro do horizonte fundamentalmente ingênuo e dogmático da tese geral. O cientista pode duvidar de um ou outro ponto de sua ciência, contudo nunca põe em dúvida a totalidade do real, razão pela qual nenhuma ciência pode, com os seus próprios meios, justificar-se como ciência, e no momento em que o fizer assume uma tarefa própria da filosofia.
Esta tese geral gera segurança, porque não se lhe abre a perspectiva de problematizar. Por isso, a explosão da fé, em que basta apenas crer, sem saber muito porque se crê. É esta crença que torna o homem dogmático, esquecido de que terá de edificar a sua própria existência. Essa mesma crença gera também o preconceito e a falsa aparência da realidade. (1986, cap. III).
5. FILOSOFIA DA NEGAÇÃO
Como abandona o homem a postura dogmática para assumir a filosófica? Como passa de uma posição não crítica para uma atitude crítica?
O Mito da Caverna de Platão auxilia a nossa explicação. Nesse mito, Platão coloca alguns homens voltados para o fundo da caverna, de modo que só podem ver as suas próprias sombras. Eles estão como que acorrentados. Esse mundo das sombras seria o comportamento dogmático, ou seja, o mundo da aparente segurança, pois nada além daquilo pode vir a perturbar os pensamentos do ser humano. Acontece que por forças das circunstâncias, o homem é obrigado a buscar a luz (conhecimento). Mas buscar a luz não é tarefa fácil, pois terá de abandonar o mundo das sombras — que acarreta dor e risco: a dor por abandonar o bem preferido; o risco por se introduzir na incerteza.
Essa nova postura é entendida como um comportamento não dogmático. Mas, o que caracteriza essa mudança? Podemos vê-la sob dois ângulos: 1.º) mudança espontânea, pelo fato das crenças tradicionais se chocarem com as antagônicas e o indivíduo ser obrigado a fazer nova escolha; 2.º) mudança provocada, pelo fato do indivíduo procurar conscientemente um novo paradigma para a realidade em que está inserido. (Borheim, 1986, cap. IV e V)
6. DOGMATISMO E ESPIRITISMO
Nossa vivência, na maioria das vezes, é apoiada em crenças dogmáticas. Entrar no Espiritismo não significa dizer que nos despojamos de todos os nossos automatismos formados ao longo de inúmeras existências. Na veiculação da idéia espírita, observamos a transferência dessas imagens, dando-se a impressão de que o Espiritismo é dogmático. Lembremo-nos de que é um erro de nossa interpretação e não expressão verdadeira dos princípios codificados por Allan Kardec.
Ilustremos esta temática com alguns exemplos:
O médium não deve comer carne no dia do trabalho. Allan Kardec, na pergunta 723 de O Livro dos Espíritos – A alimentação animal, para o homem, é contrária à lei natural?, obteve dos Espíritos, a seguinte resposta: - “Na vossa constituição física, a carne nutre a carne, pois do contrário o homem perece. A lei de conservação impõe ao homem o dever de conservar as suas energias e a sua saúde, para poder cumprir a lei do trabalho. Ele deve alimentar-se, portanto, segundo o exige a sua organização”. A “proibição” da ingestão de carne no dia do trabalho não estaria ligada à reminiscência do pecado original? Ou seja, comendo carne iríamos conspurcados, manchados à sessão mediúnica.
O mentor falou, acatemos. Em muitos Centros Espíritas, os dirigentes obedecem cegamente às diretrizes traçadas pelos seus mentores. Sem uma crítica serena, podem aceitar determinações incongruentes com relação aos princípios codificados por Allan Kardec.
Sigo a orientação de Kardec. Muitos espíritas, para defenderem os seus pontos de vistas, dizem: eu sigo a orientação de Kardec. Esquecem-se de que toda a palavra escrita deve ser processada, atualizada e melhorada pelas constantes avaliações de nosso espírito crítico.
Leio somente romances espíritas. Alguns espíritas, que não estão dispostos a um aprofundamento da Doutrina, acabam ficando apenas com a visão dos romances. Esta visão parcial do fato espírita pode ocasionar raciocínio parciais e criar atitudes dogmáticas dentro do movimento espírita.
7. CONCLUSÃO
“O Espiritismo é uma questão de fundo e não de forma”, diz J. Herculano Pires. Tenhamos coragem e despendamos esforços para penetrar no âmago de suas questões. Somente assim conseguiremos aprender os fundamentos da doutrina, evitar o preconceito e descobrir a verdade que nos liberta.
1. INTRODUÇÃO
O dogmatismo está presente em muitos atos de nossa vida. Nosso propósito é refletir sobre o significado e a ocorrência do comportamento dogmático, a fim de nos afastarmos do erro, e conduzirmos o nosso pensamento para uma atitude crítica da realidade em que estivermos inseridos.
2. CONCEITO
Dogma – do grego dokein – significa opinião certa, decreto, axioma.
Dogma (religião) – É ponto fundamental e indiscutível de uma doutrina religiosa. No Cristianismo, chamam-se dogmas as verdades reveladas, propostas pela suprema autoridade da Igreja como artigos de fé, que devem ser aceitos por todos os seus membros. (Santos, 1965)
Dogma (pejorativamente) – Chamam-se dogmas todas e quaisquer afirmações que apenas expressam opinião, sem os necessários fundamentos, mas que são proclamados como verdades indiscutíveis. (Santos, 1965)
Dogmatismo – Atitude do espírito que consiste em pensar e em se exprimir em função de dogmas, ou seja, de verdades consideradas definitivas, e que não podem ser sujeitas a discussão. (Legrand, 1982). Entre os gregos era a posição filosófica que se opunha ao ceticismo (exame, dúvida).
Dogmática – Parte da teologia que tem por objeto a exposição dos dogmas.
3. DOGMAS DA RELIGIÃO CATÓLICA
O Concílio Ecumênico, Assembléia de Bispos e principais dignitários da Igreja, sob a presidência papal, tem por objeto a formulação dos artigos de fé e moral (dogmas) com o caráter de infalibilidade. O Dogma da Infalibilidade Papal, o Dogma da Imaculada Conceição, o Dogma das Penas Eternas, o Dogma do Pecado Original etc. são alguns desses dogmas.
Dentre tais dogmas, o Dogma da Santíssima Trindade merece destaque especial. Segundo este dogma, há três pessoas em Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. São distintas, iguais, e por conseqüência coeternas, isto é, igualmente eternas e consubstanciadas numa só e indivisível natureza. Cada uma destas três pessoas é realmente Deus. O Pai não tem princípio; o Filho é originado pelo Pai desde toda a eternidade; procede assim dele por geração, ou, como se dizia outrora, por gênese; o Espírito Santo procede do Pai e do Filho como de um só princípio. Entre estas três pessoas existe ordem de origem, mas não há nem subordinação nem dependência, nem prioridade de tempo ou de excelência. A palavra Trindade não se encontra no Novo Testamento, nem nos escritos dos padres apostólicos. Contudo, segundo os teólogos, o mistério estava arraigado na primitiva comunidade cristã, “como o demonstra a fórmula do Batismo”. Mais tarde, para combater a doutrina de Ário, que impugnava a divindade de Cristo, a Igreja declarou a consubstancialidade do Pai e do Filho no Concílio de Nicéia (325) e a divindade do Espírito Santo no Concílio de Constantinopla (381). (EDIPE, 1987)
Observação: não importa se a razão não consegue entender já que é um princípio aceito pela fé – e seu fundamento é a revelação divina.
4. COMPORTAMENTO DOGMÁTICO
Bornheim, em Introdução ao Filosofar, estuda o comportamento dogmático. Quer saber como o homem passa de um estado pré-crítico para uma atitude crítica. O problema do autor consiste em analisar o que Husserl chama de “postura natural”, isto é, a concepção da realidade própria a este viver natural, metafisicamente ingênuo, desprovido de um sentido mais profundo de problematização. Husserl chama esta compreensão implícita do mundo de Generalthesis, de “tese geral”.
Dentro da postura dogmática esta “tese geral” nunca é posta em dúvida, e é exatamente por esta razão que pode ser denominada de dogmática. Nesse sentido, todas as atividades humanas, com exceção da filosófica, partem de uma tese geral, que deve ser aceita como premissa. Podemos por em dúvida alguns aspectos desta “tese geral” mas não a tese em si. De acordo com Husserl, mesmo a atividade científica, seja da natureza ou do espírito, se processa dentro do horizonte fundamentalmente ingênuo e dogmático da tese geral. O cientista pode duvidar de um ou outro ponto de sua ciência, contudo nunca põe em dúvida a totalidade do real, razão pela qual nenhuma ciência pode, com os seus próprios meios, justificar-se como ciência, e no momento em que o fizer assume uma tarefa própria da filosofia.
Esta tese geral gera segurança, porque não se lhe abre a perspectiva de problematizar. Por isso, a explosão da fé, em que basta apenas crer, sem saber muito porque se crê. É esta crença que torna o homem dogmático, esquecido de que terá de edificar a sua própria existência. Essa mesma crença gera também o preconceito e a falsa aparência da realidade. (1986, cap. III).
5. FILOSOFIA DA NEGAÇÃO
Como abandona o homem a postura dogmática para assumir a filosófica? Como passa de uma posição não crítica para uma atitude crítica?
O Mito da Caverna de Platão auxilia a nossa explicação. Nesse mito, Platão coloca alguns homens voltados para o fundo da caverna, de modo que só podem ver as suas próprias sombras. Eles estão como que acorrentados. Esse mundo das sombras seria o comportamento dogmático, ou seja, o mundo da aparente segurança, pois nada além daquilo pode vir a perturbar os pensamentos do ser humano. Acontece que por forças das circunstâncias, o homem é obrigado a buscar a luz (conhecimento). Mas buscar a luz não é tarefa fácil, pois terá de abandonar o mundo das sombras — que acarreta dor e risco: a dor por abandonar o bem preferido; o risco por se introduzir na incerteza.
Essa nova postura é entendida como um comportamento não dogmático. Mas, o que caracteriza essa mudança? Podemos vê-la sob dois ângulos: 1.º) mudança espontânea, pelo fato das crenças tradicionais se chocarem com as antagônicas e o indivíduo ser obrigado a fazer nova escolha; 2.º) mudança provocada, pelo fato do indivíduo procurar conscientemente um novo paradigma para a realidade em que está inserido. (Borheim, 1986, cap. IV e V)
6. DOGMATISMO E ESPIRITISMO
Nossa vivência, na maioria das vezes, é apoiada em crenças dogmáticas. Entrar no Espiritismo não significa dizer que nos despojamos de todos os nossos automatismos formados ao longo de inúmeras existências. Na veiculação da idéia espírita, observamos a transferência dessas imagens, dando-se a impressão de que o Espiritismo é dogmático. Lembremo-nos de que é um erro de nossa interpretação e não expressão verdadeira dos princípios codificados por Allan Kardec.
Ilustremos esta temática com alguns exemplos:
O médium não deve comer carne no dia do trabalho. Allan Kardec, na pergunta 723 de O Livro dos Espíritos – A alimentação animal, para o homem, é contrária à lei natural?, obteve dos Espíritos, a seguinte resposta: - “Na vossa constituição física, a carne nutre a carne, pois do contrário o homem perece. A lei de conservação impõe ao homem o dever de conservar as suas energias e a sua saúde, para poder cumprir a lei do trabalho. Ele deve alimentar-se, portanto, segundo o exige a sua organização”. A “proibição” da ingestão de carne no dia do trabalho não estaria ligada à reminiscência do pecado original? Ou seja, comendo carne iríamos conspurcados, manchados à sessão mediúnica.
O mentor falou, acatemos. Em muitos Centros Espíritas, os dirigentes obedecem cegamente às diretrizes traçadas pelos seus mentores. Sem uma crítica serena, podem aceitar determinações incongruentes com relação aos princípios codificados por Allan Kardec.
Sigo a orientação de Kardec. Muitos espíritas, para defenderem os seus pontos de vistas, dizem: eu sigo a orientação de Kardec. Esquecem-se de que toda a palavra escrita deve ser processada, atualizada e melhorada pelas constantes avaliações de nosso espírito crítico.
Leio somente romances espíritas. Alguns espíritas, que não estão dispostos a um aprofundamento da Doutrina, acabam ficando apenas com a visão dos romances. Esta visão parcial do fato espírita pode ocasionar raciocínio parciais e criar atitudes dogmáticas dentro do movimento espírita.
7. CONCLUSÃO
“O Espiritismo é uma questão de fundo e não de forma”, diz J. Herculano Pires. Tenhamos coragem e despendamos esforços para penetrar no âmago de suas questões. Somente assim conseguiremos aprender os fundamentos da doutrina, evitar o preconceito e descobrir a verdade que nos liberta.
Deus não Perdoa
José Reis Chaves
A frase "Deus não perdoa" parece estranha, à primeira vista. Mas, como veremos, de fato Deus não perdoa, pois só perdoa quem é ofendido. E ninguém consegue ofender a Deus, pois Ele é um ser infinito, e que, por isso mesmo, jamais poderia ser atingido ou molestado por nós, seres finitos, limitados. Se pudéssemos ser capazes de prejudicarmos Deus, não seria Ele Deus.
Com efeito, só um outro ser infinito - outro Deus - poderia ofender a Deus. E, ao admitirmos essa hipótese, estaríamos enveredando-nos pelo caminho do Politeísmo, ou seja, o da doutrina que aceita mais de um Deus.
Destarte, podemos afirmar que o chamado pecado, de que falam as religiões, está para as Leis de Deus, assim como o crime está para as Leis dos Homens. Note-se que nem Deus nem a autoridade civil sofrem, pois, quando cometemos um pecado, estamos praticando uma ação que infringe as Leis de Deus, do mesmo modo que infringimos as leis humanas, quando praticamos um crime. Entretanto, em ambos os casos - pecados e crimes - sempre quem sofre as conseqüências deles, direta ou indiretamente, são as suas vítimas, que são, também, inclusive, os próprios autores desses atos, pois um infrator das Leis - quer sejam elas divinas ou humanas - está sujeito a problemas e a penas. Realmente, o responsável por um pecado ou crime sempre sofrerá, também, as conseqüências dos seus atos, podendo ser ele, inclusive, o único prejudicado diretamente, como no caso de suicídio ou tentativa de suicídio.
E continuemos as nossas elucubrações sobre esta matéria: Deus não perdoa.
Alguém poderia objetar dizendo que a Bíblia afirma o contrário disso. E é verdade. Porém, não podemos interpretar tudo que ela diz, literalmente. São Paulo até nos advertiu dizendo que a letra mata. E a Bíblia teria mesmo que falar que Deus perdoa, para que O tivéssemos como sendo o nosso modelo de bondade e de amor, além do que as pessoas daqueles longínquos tempos somente poderiam entender esse tipo de linguagem.
Na verdade, entretanto, Deus é inofendível. E o que tem esse estado de inofendibilidade, nada tem que perdoar, pois só perdoa quem é ofendido. E é para esse estado que estamos caminhando, à proporção que, espiritualmente, vamos evoluindo.
No final da vida de Gandhi, essa grande alma de escol indiana, perguntaram-lhe se ele perdoou todos os seus inimigos. E ele respondeu que não perdoou ninguém, pois que ninguém o havia ofendido.
E eis algumas das muitas máximas conhecidas do Homem de Nazaré, que nos deixam clara essa questão de quem já está na fase de inofendibilidade: "Se alguém tomar-lhe a capa, dê-lhe, também, a túnica." "Se alguém lhe bater numa das faces, apresente-lhe a outra". "Se alguém obrigá-lo a andar uma milha, ande duas". E esta última: "Não resistais ao maligno".
Ora, se nós, com nossa perfeição relativa, podemos atingir esse estado de inofendíveis, e, conseqüentemente, de não termos que perdoar, com mais razão, com sua perfeição absoluta, Deus não perdoa!
A frase "Deus não perdoa" parece estranha, à primeira vista. Mas, como veremos, de fato Deus não perdoa, pois só perdoa quem é ofendido. E ninguém consegue ofender a Deus, pois Ele é um ser infinito, e que, por isso mesmo, jamais poderia ser atingido ou molestado por nós, seres finitos, limitados. Se pudéssemos ser capazes de prejudicarmos Deus, não seria Ele Deus.
Com efeito, só um outro ser infinito - outro Deus - poderia ofender a Deus. E, ao admitirmos essa hipótese, estaríamos enveredando-nos pelo caminho do Politeísmo, ou seja, o da doutrina que aceita mais de um Deus.
Destarte, podemos afirmar que o chamado pecado, de que falam as religiões, está para as Leis de Deus, assim como o crime está para as Leis dos Homens. Note-se que nem Deus nem a autoridade civil sofrem, pois, quando cometemos um pecado, estamos praticando uma ação que infringe as Leis de Deus, do mesmo modo que infringimos as leis humanas, quando praticamos um crime. Entretanto, em ambos os casos - pecados e crimes - sempre quem sofre as conseqüências deles, direta ou indiretamente, são as suas vítimas, que são, também, inclusive, os próprios autores desses atos, pois um infrator das Leis - quer sejam elas divinas ou humanas - está sujeito a problemas e a penas. Realmente, o responsável por um pecado ou crime sempre sofrerá, também, as conseqüências dos seus atos, podendo ser ele, inclusive, o único prejudicado diretamente, como no caso de suicídio ou tentativa de suicídio.
E continuemos as nossas elucubrações sobre esta matéria: Deus não perdoa.
Alguém poderia objetar dizendo que a Bíblia afirma o contrário disso. E é verdade. Porém, não podemos interpretar tudo que ela diz, literalmente. São Paulo até nos advertiu dizendo que a letra mata. E a Bíblia teria mesmo que falar que Deus perdoa, para que O tivéssemos como sendo o nosso modelo de bondade e de amor, além do que as pessoas daqueles longínquos tempos somente poderiam entender esse tipo de linguagem.
Na verdade, entretanto, Deus é inofendível. E o que tem esse estado de inofendibilidade, nada tem que perdoar, pois só perdoa quem é ofendido. E é para esse estado que estamos caminhando, à proporção que, espiritualmente, vamos evoluindo.
No final da vida de Gandhi, essa grande alma de escol indiana, perguntaram-lhe se ele perdoou todos os seus inimigos. E ele respondeu que não perdoou ninguém, pois que ninguém o havia ofendido.
E eis algumas das muitas máximas conhecidas do Homem de Nazaré, que nos deixam clara essa questão de quem já está na fase de inofendibilidade: "Se alguém tomar-lhe a capa, dê-lhe, também, a túnica." "Se alguém lhe bater numa das faces, apresente-lhe a outra". "Se alguém obrigá-lo a andar uma milha, ande duas". E esta última: "Não resistais ao maligno".
Ora, se nós, com nossa perfeição relativa, podemos atingir esse estado de inofendíveis, e, conseqüentemente, de não termos que perdoar, com mais razão, com sua perfeição absoluta, Deus não perdoa!
Assinar:
Postagens (Atom)