segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Evolução e o Exílio

Robson Gonçalves Comentários sobre a história de uma civilização pré-Clássica. Tem sido veiculado por um canal de televisão a cabo um documentário sobre a civilização chamada minóica, que se desenvolveu nas ilhas do mar Egeu em um período anterior ao ano de 1600 A.C. O fio condutor`original do documentário é a possível vinculação entre a civilização minóica e a lenda de Atlântida. Como veremos, do ponto de vista doutrinário, este não é o ponto de maior interesse. Além do conteúdo histórico propriamente dito, o relato feito no documentário é de grande interesse para o seguidor da Doutrina Espírita pois permite ilustrar um ponto fundamental da tese sobre a evolução da humanidade terrena, desenvolvida na Codificação de Kardec e comentada por diversos outros autores. No texto que segue, procuro fazer um resumo dos fatos narrados no documentário, passando, em seguida, ao confronto com elementos da Doutrina. Uma das características mais interessantes das ruínas de Cnossos, cidade situada em Creta, a maior ilha do Egeu, e que foi o centro da civilização minóica, é o fato de que os palácios e as cidades não são amuralhados. Isso transmite a idéia de uma civilização pacífica e sem rivais. O auge de Cnossos coincide com uma parte da história faraônica do Egito e com a civilização Assíria. Ora, os documentos de ambas as civilizações narram batalhas e conquistas durante essa mesma época, as quais ficaram registradas inclusive na decoração dos principais monumentos históricos. Também se sabe que os minóicos tiveram contatos comerciais com os egípcios. Mesmo assim, não há indícios de que eles tenham assimilado um comportamento belicoso. Por fim, os minóicos tinham certas cerimônias religiosas que ficaram retratadas em peças de decoração como cálices de metal. Elas retratam jovens, vinhas e bois. Estas características são um primeiro indício de ligação entre Creta e Atlântida pois, segundo o documentário, Platão havia se referido cerimônias parecidas com aquelas retratadas naquelas peças. O que pareceria muito divergente seria o fato, ao que parece também narrado por Platão, de que a civilização atlântida havia desaparecido no mar em uma única noite. E isso não aconteceu com nenhuma parte da ilha de Creta. Mas aconteceu com a ilha de Tera. Atualmente, essa outra ilha é um rochedo vulcânico, recoberto por cinzas de uma grande explosão que ocorreu durante a era minóica. As modernas escavações feitas no local revelaram traços muito semelhantes aos de Cnossos, indicando que os habitantes faziam parte da mesma civilização que dominava Creta durante aquela era. Mais do que isso, as construções de Tera se mostraram extremamente avançadas para os padrões da época: afrescos em quase todos os cômodos, fontes, água corrente no interior das casas. Assim como em Cnossos, as construções de Tera não revelaram o menor sinal de atividade militar. Os temas dos afrescos são cenas do cotidiano. A representação de animais africanos nesses afrescos mostra que Tera, assim como Cnossos, também deve ter mantido contato comercial com a África. Essa civilização desenvolvida e pacífica, que possuía atividades religiosas onde o touro desempenhava papel central, é bastante assemelhada com o relato platônico da civilização atlântida. Além disso, existem muitos registros de que a erupção que soterrou a ilha foi de proporções gigantescas. Existem relatos dos antigos escribas egípcios e chineses descrevendo as nuvens (certamente de origem vulcânica) que cobriram os céus no ano da erupção. Para que a tal nuvem tenha chegado até a China, sua causa tem que ter sido realmente catastrófica. Também existem indícios de que os efeitos da erupção tenham chegado até a América do Norte. Na Califórnia existem pinheiros milenares cujo padrão de crescimento é alterado ao longo do ano devido à duração do dia. A cada ano, uma nova camada de madeira se forma nos pinheiros, que acabam servindo como um registro histórico de alterações climáticas. Precisamente na data provável da erupção no Egeu (aproximadamente século XVII antes de Cristo), os pinheiros registram uma redução de luminosidade fora de época, apontando para a provável influência da erupção em Tera. A tese, portanto, é de que a lenda de Atlântida corresponde a uma narrativa um pouco distorcida dos acontecimentos passados em Tera. Mais ainda, é possível que o maremoto formado com a erupção tenha abalado seriamente a marinha mercante em Creta, contribuindo para a decadência relativamente rápida da civilização minóica. Existe um contraste intrigante entre a civilização minóica e a grega clássica em termos do contato com outros povos e em termos da herança que deixaram para as gerações futuras. Isto porque a civilização minóica simplesmente desapareceu, restando apenas uma sombra nas lendas gregas até as escavações de finais do século passado e começo deste século. Já a civilização grega, que dominou Creta durante o período micênico após a decadência final dos minóicos, transmitiu seu conhecimento tanto para as civilizações do Oriente Próximo (fase helenista) quanto para os romanos. Em outras palavras, é como se os minóicos, apesar de seu desenvolvimento material e moral, tivessem ficado isolados em termos culturais, mesmo mantendo contatos com egípcios, assírios e outros povos do mediterrâneo, enquanto os gregos influenciaram e foram influenciados continuamente. Ao mesmo tempo, a filosofia se desenvolveu muito mais na Grécia Clássica, mas os gregos foram muito mais belicosos do que os minóicos parecem ter sido. Em resumo, a civilização mais pacífica e relativamente mais desenvolvida em termos materiais permaneceu isolada e depois desapareceu abruptamente. A menos pacífica e filosoficamente mais desenvolvida não se isolou e influenciou todas as gerações futuras. Qual será a lógica disso ? Neste ponto é preciso passar do documentário original para o campo da Doutrina. Desde a Codificação, passando, evidentemente, por Emmanuel em seu A Caminho da Luz, a Doutrina Espírita admite a tese de que a evolução dos diversos mundo planetários possui um certo conteúdo de solidariedade. Ou seja, em determinados momentos, críticos do ponto de vista da evolução planetária, comunidades inteiras de espíritos relativamente atrasados são exiladas em mundos que lhes são inferiores moral e intelectualmente. Isto contribui tanto com o avanço da esfera planetária de origem como com o daquela que recebe os exilados. Estes, por sua vez, não apenas expiam seu relativo retardo moral, razão de seu exílio, como influenciam positivamente a humanidade planetária que os recebe. O surgimento abrupto de civilização altamente avançadas em termos intelectuais na história terrena tem sido apontado como motivado essencialmente pela chegada ao nosso planeta dessas comunidades exiladas. Muito embora os membros de tais comunidades tenham todo um rol de características comuns, não haveria porque imaginar que todos estivessem em um mesmo nível de evolução moral e intelectual. E aqui começo a enunciar minha própria tese. Acredito que os minóicos tinham um afastamento natural em relação aos seus contemporâneos porque não compartilhavam de certas características como a belicosidade. E como eles possuíam, ao mesmo tempo, uma grande capacidade empreendedora, acho que se pode arriscar que se tratava de um grupo específico de exilados, mais desenvolvidos moralmente e com um elevado conhecimento intelectual prático. O contraste com a civilização grega micênica que a sucedeu na hegemonia sobre o Mediterrâneo Oriental, guerreira e opressora, conduz diretamente ao principal livro da Codificação. No Livro dos Espíritos, encontramos a seguinte passagem: "Questão 786: - A História nos mostra uma multidão de povos que, depois dos abalos que os agitaram, caíram na barbárie; onde está, nesse caso, o progresso? - Quando tua casa ameaça cair, tu a derrubas para a reconstruir de maneira mais sólida e mais cômoda; mas, até que ela esteja reconstruída, há perturbação e confusão em tua residência. Compreende ainda isso: eras pobre e habitavas um casebre, porém, tornado-te rico o trocaste para habitar um palácio. Então, um pobre diabo, como tu o eras vem tomar teu lugar no casebre e está muito contente, porque antes disso não tinha abrigo. Pois bem! Aprende que os espíritos que estão encarnados nesse povo degenerado não são aqueles que o compuseram ao tempo do seu esplendor. Os de então, que avançaram, foram para habitações mais perfeitas e progrediram, enquanto que outros menos avançados tomaram seu lugar que, a seu tempo, trocarão." A conclusão desta breve discussão é que os minóicos foram muito mais do que a origem provável da lenda da Atlântida. Esse povo constitui um exemplo marcante da relevância da Doutrina Espírita para o bom entendimento de certos fatos históricos que poderiam parecer no mínimo surpreendentes se adotássemos métodos de análise de caráter materialista. A lei das afinidades, bem como o princípio fundamental da evolução, regem os destinos da Humanidade em toda parte e devem servir tanto de guia para nossa conduta moral como de método para nossas reflexões sobre os acontecimentos históricos de todos os tempos.