quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Educação e Espiritismo


O espiritismo, segundo Allan Kardec, pretende ser ao mesmo tempo uma ciência, que demonstra através do estudo empírico dos fenômenos mediúnicos a existência dos espíritos e sua atuação sobre o mundo; uma filosofia, que propõe uma cosmovisão evolucionista e reencarnacionista; e uma religião, sem dogmas, rituais e sacerdócio organizado, que faz uma releitura do cristianismo e prega uma prática religiosa centrada na moral e na ligação direta do homem com Deus.

Para além dessas três dimensões, porém, ou como resultante de todas elas, o espiritismo tem um caráter eminentemente pedagógico. [1] Não só porque seu fundador, Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), depois Allan Kardec, tenha sido um grande educador francês, seguidor da proposta de Pestalozzi, seu mestre. Mas porque o cerne da filosofia espírita é uma proposta de educação do espírito.

O espiritismo não entende o devir humano, como uma história de salvação, segundo o conceito do cristianismo tradicional, mas como uma história de evolução. O homem foi criado simples e ignorante e está destinado a conquistar a perfeição, através do aprendizado de múltiplas vidas sucessivas. Não houve uma tragédia inicial de queda e nem a necessidade de uma intervenção divina, para a redenção das criaturas. Tudo corre conforme previsto pelo Criador. A humanidade está em processo educativo, aprendendo, através da ação livre no mundo, a crescer espiritualmente, a fazer desabrochar as virtudes e a sabedoria que serão suas, quando atingir o alvo evolutivo a que Deus nos destinou. Todo mal e todo desvio de rota estão por nossa conta, mas são males e desvios passageiros, porque a imanência de Deus em nós garante mais dia, menos dia, a volta ao caminho da perfeição. Perde-se a tragicidade do drama do pecado, da queda; ganha-se em autonomia para o ser, pois que de nós depende quando e como vamos aderir a esse projeto de perfeição e felicidade, para o qual fomos criados.

Um dos pontos mais polêmicos em torno dessa cosmovisão é que ela se pretende cristã e ao mesmo tempo universal. Em que sentido uma coisa e outra? Cristã, porque as idéias de redenção universal (que ninguém estaria eternamente condenado ao mal, nem mesmo o demônio), de reencarnação, da possibilidade de aperfeiçoamento autônomo do indivíduo, estavam presentes nos primeiros três séculos de cristianismo. As duas primeiras foram aceitas por Orígenes, a última, por Pelágio. Ambos, depois condenados pela ortodoxia, tiveram suas interpretações do cristianismo banidas da Igreja Católica. [2]

Outro aspecto que inviabiliza, segundo católicos e protestantes, chamar-se o espiritismo de cristão é a negação da Trindade. Dogma essencial da ortodoxia, considera-se como indispensável para a identidade do cristianismo. Entretanto, também esse dogma, segundo a posição espírita, foi construído historicamente. Arius, o padre que defendia que Jesus não era Deus, mas um seu enviado, foi combatido por Atanásio e quando o Imperador Constantino tornou o cristianismo a religião oficial do Estado romano, a doutrina na Trindade foi assumida como a ortodoxia e a ariana, como herética. Comenta Kardec:

“Se o símbolo de Nicéia, que se tornou o fundamento da fé católica, fosse conforme o espírito do Cristo, para que o anátema final? Não é isto prova de que é obra da paixão dos homens? A que se deve a sua adoção? À pressão do Imperador Constantino, que fez dele uma questão mais política do que religiosa. Sem sua ordem não se teria realizado o Concílio e sem a sua intimidação é mais do que provável que o arianismo tivesse triunfado. Dependeu, pois, da autoridade soberana de um homem, que não pertencia à Igreja, que reconheceu mais tarde o erro que cometera e que procurou inutilmente voltar atrás conciliando os partidos, não sermos hoje arianos em vez de católicos, e não ser hoje o arianismo a ortodoxia e o catolicismo a heresia.”
(KARDEC, 1971:118)

Essa questão da divindade de Jesus está intimamente ligada às outras, levantadas por Pelágio e Orígenes: entendendo-se Cristo como um modelo de perfeição (e não como o próprio Deus), entendendo-se que podemos atingir esse modelo, segundo o nosso esforço pessoal, através de múltiplas vidas, tira-se a tragicidade da queda, do pecado, que corrompeu o homem, que precisa da graça e do sangue de Deus encarnado para reconciliar-se com a divindade. [3]

“Do ponto de vista dos arianos, era essencial que Jesus não fosse Deus, pois Deus, sendo perfeito por natureza, era inimitável. Em compensação, a virtude transcendente de Cristo, que era fruto de atos repetidos de sua vontade, era ao menos potencialmente acessível ao resto dos mortais.”(RUBENSTEIN, 2001:26)

Embora as correntes ortodoxas do cristianismo também acreditem na herança divina na criatura, como uma presença imanente, há, segundo elas, algo que turva o ser do homem e precisa de uma reparação. Ocorre que esta reparação, intermediada por Cristo, é intermediada pelas instituições que o representam (e essa idéia é mais forte no catolicismo), tornando o homem de dependente de uma graça, que é de alguma forma materializada por mãos humanas.

O espiritismo entende que toda essa doutrina foi instrumentalizada para a dominação das consciências e por isso vê em Jesus um modelo de perfeição moral, que qualquer ser humano é convidado a seguir, porque o nosso destino de espíritos, criados por Deus, é o da perfeição. Ao mesmo tempo, o mal perde seu caráter trágico, para tornar-se, apesar de todas as barbáries humanas, uma espécie de aprendizado da liberdade. Deus nos deixa inclusive experimentar os caminhos mais escabrosos, para aprendermos o valor do bem. (Assemelha-se essa idéia ao construtivismo na pedagogia: a criança erra para aprender ou o erro é uma experimentação necessária).

Dizia acima também que o espiritismo se pretende universal, além de cristão, porque, embora reconheça em Cristo o Espírito mais puro que já veio à terra e se insira dentro da tradição judaico-cristã, Kardec dizia que a verdade da revelação divina está presente em todas as religiões. Em todas as épocas, em todas as culturas, entre todos os povos, houve enviados de Deus, para ensinar aos homens as leis da vida. (Além, é claro, dessas leis estarem impressas na própria consciência humana).
Uma proposta pedagógica espírita

Se lemos o espiritismo com olhos pedagógicos, como foi escrito por Kardec e teorizado e praticado por iniciadores da pedagogia espírita no Brasil (tais como Eurípedes Barnanulfo, Anália Franco, Herculano Pires, Ney Lobo e outros) veremos que se podem deduzir alguns princípios fundamentais, que aqui, didaticamente, resumo em três. Esses princípios podem ser extraídos da cosmovisão espírita, mas não por acaso, aparecem em três clássicos da Educação, de que Kardec foi herdeiro: Comenius, Rousseau e Pestalozzi.

Se o espiritismo entende o percurso da alma humana através do tempo, como um processo educativo, deflagrado por Deus, compreendido como Pai, então deve haver uma pedagogia divina. Esta pedagogia tem três parâmetros:

1) A liberdade: fomos lançados livres no universo, com o direito e o dever de construirmos a nós mesmos e cultivarmos as sementes de divindade que trazemos em nós;

2) A ação: somos livres, para agir no mundo e é através da ação, que promovemos o nosso aprendizado, experimentando situações e vivências, em diversas vidas, até adquirirmos sabedoria e virtude;

3) O amor: embora Deus tenha nos criado livres para agir, não nos deixou ao abandono, cerca-nos com seu amor incessante, enviando seus mensageiros, para ensinar ao homem a verdade e o bem, colocando ao nosso lado Espíritos que nos amam e orientam e intervindo junto a nós como Providência, que nos acompanha.

São esses três princípios, pois, que podemos erigir como fundadores de uma proposta pedagógica espírita: respeitar a liberdade e a individualidade da criança, que deve agir para aprender (e isso vai desde a aplicação prática de fórmulas matemáticas até o exercício das virtudes), mas essa ação livre deve ser acompanhada pelo amor dos educadores, empenhados em incentivar e cultivar o lado bom dos educandos, com atenção, diálogo, observação e autoridade moral.

Dentro dessa filosofia educacional, como se apresenta o ensino da religião?

O espiritismo reconhece que a dimensão espiritual do ser humano é essencial para o seu desenvolvimento integral. Ao mesmo tempo, Kardec não queria que a doutrina espírita tivesse um caráter proselitista (embora isso nem sempre seja seguido por seus adeptos), pois o respeito à liberdade de consciência é quesito absoluto da ética por ele proposta. Herculano Pires (que lutou na década de 60, pela escola laica, gratuita e obrigatória), diante da necessidade de se recuperar o aspecto espiritual na esducação, propõe que:

“…não podemos ter Educação sem Religião, o sonho da Educação Laica não passou de resposta aos grandes equívocos do passado (…). O laicismo foi apenas um elemento histórico, inegavelmente necessário, mas que agora tem de ser substituído por um novo elemento. E qual seria essa novidade? Não, certamente, o restabelecimento das formas arcaicas e anacrônicas do ensino religioso sectário nas escolas. Isso seria um retrocesso e portanto uma negação de todas as grandes conquistas (…). Reconhecendo que a Religião corresponde a uma exigência natural da condição humana e a uma exigência da consciência humana, e que pertence de maneira irrevogável ao campo do Conhecimento, devemos reconduzi-la à escola, mas desprovida da roupagem imprópria do sectarismo. Temos de introduzir nos currículos escolares, em todos os graus de ensino, a disciplina Religião ao lado da Ciência e da Filosofia. Sua necessidade é inegável, pois sem atender aos reclamos do transcendente no homem não atingiremos os objetivos da paidéia grega: a educação completa do ser para o desenvolvimento integral e harmonioso de todas as suas possibilidades.” (PIRES, 1985:40)