quarta-feira, 24 de março de 2010

O CIÚME e A INVEJA



Adésio Alves Machado

Estes dois germens morais, atormentadores da criatura, mereceram de Allan Kardec uma indagação, por considerar necessária uma explicação sobre em quem recairia a culpa dos sofrimentos morais do homem. Ele já sabia que os (sofrimentos) materiais se originam no homem.
Através da pergunta 933 de “O Livro dos Espíritos”, ficou sabendo que a inveja e o ciúme são dois vermes roedores, felizes são os que os desconhecem e que quando eles atacam não há calma nem repouso possível para quem os porta. São autênticos fantasmas que não dão tréguas e perseguem o homem até nos sonhos. Levantam o objeto das suas cobiças, do seu ódio, do seu despeito. O invejoso e o ciumento vivem ardendo em febre contínua. Desta forma, o homem passa a criar para si mesmo suplícios voluntários, fazendo com que a Terra seja um verdadeiro inferno.
Abramos um parêntese: recorrendo ao dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, perceberemos que ciúme é também um despeito invejoso; é inveja. E inveja é desgosto, pesar pelo bem ou pela felicidade desfrutada pelo outro. Pode-se sentir o quanto estes dois sentimentos, no fundo, possuem quase idêntica significação. Assim, anotaremos os dois como sinônimos, malgrado sintamos a nuance existente entre eles. Fechemos o parêntese.
Aproveitando a oportunidade, Allan Kardec faz um comentário sobre a resposta dos Espíritos Orientadores, explicitando que a pessoa ciumenta o é, por natureza, de tudo que se eleva, de tudo que possa destacar-se da craveira comum. Mostram-se ciumentas porque não podem conseguir o que o outro logrou. Aditou mais que o homem só é infeliz pela importância que dá às coisas deste mundo. A vaidade, a ambição e a cobiça não atendidas lhe fazem infeliz. Caso ele colocasse seus pensamentos sobre o infinito, que é o seu destino, muito insignificantes e pueris lhe pareceriam as vicissitudes da Humanidade. Quem só vê felicidade na satisfação do orgulho dos apetites grosseiros é infeliz, mais ainda quando não os pode atender. Aquele, no entanto, que nada deseja ou ambiciona de supérfluo pode considerar-se feliz, enquanto o ciumento e o invejoso, na mesma situação, sentem-se vivendo uma calamidade.
O homem civilizado, geralmente, raciocina sobre a sua infelicidade e a analisa. Procura, entrementes, os meios disponíveis para dela sair. Investe neles e encontra a consolação no ensino cristão que lhe fornece a esperança de um futuro melhor, mais ameno. Percebe, claramente, que no Espiritismo encontrará a certeza desse futuro, caso siga seus ensinos.
O ciúme/inveja leva à infelicidade, é inconteste. Necessário se torna, pois, conhecermos como ele se introduz em nosso íntimo. Saberemos entreter contato com ele quando refletirmos sobre a sua origem. Aí teremos a plena consciência da sua existência em nossa vida e nos capacitaremos a lidar com ele. Qual, então, o mecanismo que nos enfraquece o interior, viabilizando que a inveja/ciúme se interiorize em nós?
Tudo se resume numa palavra: comparação. Quando se fala em inveja/ciúme chega-se à comparação. O processo comparativo está no contexto existencial do ser humano na Terra. Ele tem necessidade de alguém que lhe sirva de modelo emulativo. Quando nos comparamos com alguém e nos sentimos inferiores, nasce a inveja/ciúme, sutilmente. Pode afirmar-se que inexiste a inveja/ciúme se antes não tiver havido a comparação.
A inveja/ciúme (lembram eles a estreita relação existente entre o amor e a caridade. Quem é caridoso, ama; quem ama, é caridoso é um sentimento inferior que se instala em nós sob a forma de frustração, de tristeza, de mal estar, de constrangimento por nos vermos miniaturizados, inferiores a alguém. Sentimo-nos menores por não termos o que o outro possui, seja o que for. A criatura entra em desequilíbrio íntimo, oriundo deste sentimento paralisante das verdadeiras forças psíquicas. Não desfrutamos do mesmo padrão de vida, da mesma cultura, do mesmo perfil físico, da mesma situação social e espiritual do semelhante e isto nos incomoda.
A inveja/ciúme não aparece repentinamente, porém, instala-se de forma gradativa, imperceptível. Um dos primeiros sinais da presença dele rondando o nosso campo mental é nos acharmos melhor do que o outro e com isso passarmos, quase sempre, a nos vangloriarmos, enaltecermo-nos procurando, com esta atitude, manter o nosso equilíbrio que se insinua fugir.
Ao criticarmos, diminuirmos, ofendemos alguém, sentimos necessidade de falar mal dele, estamos sentindo inveja/ciúme de sua performance.
O arrogante é a pessoa que, em se comparando com alguém, a este se sente inferior. Já o invejoso/ciumento não tem como ver a luz , a alegria, a simpatia do outro, não encontrando, assim, respostas para a diversidade do mundo e das criaturas. A inveja/ciúme termina por conduzir a pessoa a não se gostar, a uma auto-aversão. A pessoa auto se rejeita por não se ver maior e melhor do que o outro. É uma frustração consigo mesma, é sentir-se triste com o que se é.
Chega-se a dizer que a melhor definição para o homem não é mais a de um animal racional, mas a do homem como um animal que se compara e se imita. Tudo no homem gira em torno do estado comparativo, baseando-se o processo social na comparação. Aprende-se desde cedo a interiorizar esse processo em nosso modo de ser. As pessoas e as coisas são sempre comparadas umas com as outras.
Todo processo comparativo inicia-se na família, que em um ou noutro momento nos foi apresentado alguém ou algum comportamento como modelo. Todos se sentem tão envolvidos pelo processo que nunca se dão conta da sua existência.
Na escola há o mesmo sistema baseado na comparação. Busca-se, pelo estímulo em que todo aluno está imerso, que se tem de alcançar o primeiro lugar, a classe mais adiantada, o melhor conjunto esportivo, o mais eficiente professor se deve ter, a melhor nota...
Assim acontece na sociedade, nos filmes, na propaganda no rádio, na televisão, nos jornais. Propaga-se que se deve olhar alguém com todas as possibilidades de riqueza, poder, prestígio, inteligência, beleza e magnetismo pessoal. Então, a propaganda passa a nos oferecer recursos e meios para chegarmos lá também, através da inoculação em nós do ciúme/inveja daquela posição.
A inveja/ciúme é o sentimento que mais nos oprime, que mais nos enforca. Portanto, invejoso/ciumento é todo aquele que, no lugar de sentir prazer com aquilo que é ou com aquilo que tem, sofre com aquilo que não é e com aquilo que não tem. O gostar-se e o amar-se estão no cerne da questão.
Não temos como hábito fazer a comparação conosco mesmos, o que seria altamente vantajoso. Não fazemos jamais uma análise do índice de crescimento nosso nos últimos tempos. Estamos melhores ou piores em termos sociais, psicológicos, financeiros, espirituais e morais? Na auto-comparação, fortalecemos o nosso ego, o nosso ponto de equilíbrio, e passamos a nos dirigir de dentro de nós mesmos e não do ponto de vista dos outros. Seremos, assim, o ponto referencial, donos de nossa vida e não mais temos os outros como ponto fundamental da nossa ânsia de viver. Este procedimento realiza o encontro de nós conosco mesmos. Somos o nosso apoio, e não buscamos sustento fora, porém, dentro de nós.
Existimos para sermos, não melhores do que os outros, mas para sermos melhores do que nós próprios.
Na essência de todo sentimento de inveja/ciúme existe o sentimento de admiração. No entanto, esta admiração somente surge caso estejamos já em postura de agradecimento pelo que alcançamos em termos de posição social, cultural, intelectual e moral.
O invejoso/ciumento, ao ver alguém a quem deveria admirar, é impulsionado a malhar essa pessoa. Pode-se comparar com a situação dos planetas e das estrelas. Estas têm luz própria, enquanto aqueles dependem delas para refletir a luz que recebem. Por isso é que o amigo é aquele que se sente feliz com a felicidade do amigo, não o invejoso que tenta roubar a alegria do outro. Não se resolve a inveja/ciúme torcendo pela derrota, pela infelicidade do outro. No fundo ele sofre duplamente: pelo que o outro tem e pelo que não lhe é dado possuir.
Sendo padrão de nós mesmos, reencontraremos a alegria de ser o que somos, de ter o que temos, de viver como vivemos. Apenas exercitando a auto-comparação conseguiremos chegar à auto-aceitação, à realização própria do nosso tamanho.
Conta-se que um sábio se achava triste, preocupado antes de morrer. Foi ele indagado pelos alunos sobre a causa daquela situação estranha, tendo em vista que ele havia sido, durante toda a vida, um exemplo de coragem como Salomão e de justiça como Moisés, de humildade como Francisco de Assis. O sábio respondeu: Exatamente. Quando eu me encontrar com DEUS após a minha morte, sei que Ele não vai me perguntar se eu fui Moisés ou Salomão, mas se eu fui eu mesmo.