terça-feira, 2 de março de 2010

O Grito


- Uma boa palavra auxilia sempre. Às vezes, supomo-nos sozinhos e proferimos inconveniências. Desajudamos quando podíamos ajudar. É preciso aproveitar oportunidades. Falar é um dom de Deus. Se abrimos a boca para dizer algo, saibamos dizer o melhor.

A pequena assembléia ouvia atenta a palavra de Sálus, o instrutor espiritual que falava pelo médium.

- Não adianta repetir frases inúteis. E é sempre falta grave conferir saliência ao mal. Comentemos o bem. Destaquemos o bem.

Dentre todos os presentes, Belmiro Arruda escutava em silêncio.

Decorridos alguns dias, Arruda, nas funções de pedreiro-chefe, orientava o término da construção de grande recinto. O enorme salão parecia completo. Tudo pronto. Acabamento esmerado. Pintura primorosa.

- Experimentemos a acústica - disse o engenheiro superior.

E virando-se para Belmiro:

- Grite algo.

Arruda, recordando a lição, bradou:

- Confia em Jesus!... Confia em Jesus!...

O som estava admiravelmente distribuído.

Os operários continuavam na sua faina, quando triste homem penetra o recinto. Cabeleira revolta. Semblante transtornado.

- Quem mandou confiar em Jesus? - perguntou.

Alguém aponta Belmiro, para quem ele se dirige, abrindo os braços.

- Obrigado, amigo! - exclamou.

E mostrando um revolver:

- Ia encostar o cano ao ouvido, entretanto, escutei seu apelo e sustei o tiro... Queria morrer no terreno baldio da construção, mas sua voz acordou-me... Estou desempregado, há muito tempo, e sou pai de oito filhos... Jesus, sim! Confiarei em Jesus!...

Arruda abraçou-o, de olhos úmidos. O caso foi conduzido ao conhecimento do diretor do serviço. E o diretor, visivelmente emocionado, estendeu a mão ao desconhecido e falou:

- Venha amanhã. Pode vir trabalhar amanhã.