quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Entrevista com Paulo Henrique Figueiredo

Por Cathia Abreu

Quem tem medo da morte?
Como falar sobre o assunto, principalmente, com crianças?

Mistério para muitos, assunto proibido para alguns, vida e esperança para outros. A morte possui vertentes que nos levam a repensar nossos conceitos sobre esse processo natural. Apesar de ser uma das únicas certezas para algumas pessoas, uma notícia de morte deve ser dada com atenção e buscando sempre a tranquilidade e o devido carinho para com aquele que deve recebê-la. Para isso, é preciso harmonia interior e equilíbrio. Quando o receptor da notícia é uma criança então, esse carinho e atenção devem ser redobrados. Traumas, tristezas e outras mazelas podem ser fruto de uma notícia brusca de morte.
Para falar desse assunto tão delicado, o Correio Espírita buscou a experiência de Paulo Henrique de Figueiredo, pesquisador e divulgador do Espiritismo, diretor de redação da Revista Universo Espírita.

Correio Espírita - A morte, para muitos, é a única certeza. Contudo, a maioria das pessoas prefere ignorar esse momento que, naturalmente, todos nós vamos passar. Qual a opinião do senhor sobre isso?

Paulo Henrique de Figueiredo - A humanidade está condicionada pela febre do consumo. Todo dia, as grandes corporações criam novas necessidades anunciadas com insistência na mídia. Diante desse modo de vida, a morte é um grande inconveniente que precisa ser ignorado a todo custo. O trabalho está em competir para aproveitar ao máximo a vida, propõe o materialismo, pois só existe o nada depois dela! É claro que essa busca está recheada de angústia, frustração e desespero. Nessa luta insana, a esmagadora maioria da população mundial sofre com fome, ignorância e desprezo. Por sua vez, a minoria abastada vive acuada pela violência e o medo de perder seus bens. Olhe à sua volta: ninguém pode ser feliz nessas condições. Não há nada de errado em desejar bem estar e conforto, mas é preciso considerar a existência da vida futura, propõe o Espiritismo. Só quando reconhece a continuidade da vida após a morte e a responsabilidade pelos seus atos, o indivíduo vê sentido na solidariedade. Um mundo feliz surgirá quando a competição for superada pela cooperação e houver igualdade de oportunidade para todos.

C.E.- Qual é a visão espírita para a morte?

P.H.F. - A explicação desse fenômeno pelo Espiritismo não é um sistema criado por Allan Kardec, mas sim o resultado da observação. Foram os espíritos que vieram nos descrever essa realidade. A alma, longe de ser uma abstração, é um ser que possui um corpo, o perispírito, vivendo num universo paralelo ao nosso. Quando dormimos, a alma liberta-se do corpo físico e age no mundo espiritual, como ocorrerá após a morte. Desse modo, morrer é passar por um sono de transição, despertando para a verdadeira vida. Infelizmente, os costumes cercam esse fenômeno de medo, repulsa e cerimônias tristes e sinistras. Além disso, a morte é sinônimo de terror nos filmes, noticiários e livros. É uma questão de cultura. A educação espírita poderá reverter essa condição, apresentando a morte como lei natural; associada a renovação, continuidade da vida e esperança.

C.E - A morte para os adultos já é tema que não agrada. E para falar de um assunto tão difícil para as crianças. Existe alguma maneira mais apropriada?

P.H.F - Muitas famílias costumam esconder a morte das crianças pensando em poupá-las da dor. Isso acontece até com animais de estimação. Há quem diga que o bichinho fugiu, para não falar da morte. No entanto, não seria essa a melhor oportunidade para falar do assunto? Explicar com naturalidade que o animal não morreu, apenas seu corpo, ele continua vivo e irá renascer em outro animal, evoluindo sempre. Quando a morte de alguma pessoa próxima ocorrer, esse exemplo será útil. Também é comum dizer à criança que a pessoa que morreu foi viajar para muito longe. Além de ficar esperando uma volta que nunca irá ocorrer, a criança ficará com medo de que ela ou outra pessoa viaje! Ninguém consegue esconder o sentimento e a insegurança desse momento: o melhor a fazer é explicar que a morte é uma separação momentânea, e que, quando o corpo morre, ele não mais se refaz. No entanto, haverá um reencontro futuro, quando todos estarão novamente juntos no mundo espiritual. Desse modo, será possível compartilhar com a criança a saudade da separação com naturalidade. Não há nada de errado em ficar triste, esse sentimento é natural.

C.E - E uma morte que, aparentemente, aconteceu de maneira precoce. Com crianças, por exemplo. Existe uma explicação à luz da Doutrina Espírita para isso?

P.H.F - É exatamente nos casos de morte prematura que a reencarnação mostra toda a sua justiça e grandeza. Se a vida fosse uma só, porque Deus permitiria que houvesse a morte prematura? Porque o Criador criaria condições diferentes para seus filhos? Cada uma de nossas vidas é uma oportunidade de superarmos defeitos e explorarmos as capacidades inatas de nossa alma. Escolhemos, antes de nascer, as melhores provas de acordo com os objetivos morais e intelectuais de nossa alma. Os Espíritos explicam que na maioria das vezes a morte prematura é uma prova para os pais, com o objetivo de lidar com a perda e a frustração desse fato, desenvolvendo paciência, superação e confiança em Deus.

C.E - Uma notícia de morte, muitas vezes, traz depressão e desesperança. O que dizer para quem passou por uma "perda" de entes queridos?

P.H.F - Quando compreendemos mais detalhadamente a vida futura, o medo da morte perde o sentido. A tristeza e a saudade diante da separação é um sentimento natural e sadio. No entanto, revolta, desespero e depressão - quando se ampliam e aprofundam - podem desencadear doenças e sofrimento ainda maiores. O mundo espiritual não é uma fantasia, mas uma realidade científica. Os Espíritos participam de nosso convívio e acompanham nossos sentimentos. A relação entre os dois mundos faz parte de nosso cotidiano. Há milhares de anos, os antigos egípcios não viam a morte como uma fronteira intransponível. Era comum entrar em contato com os entes queridos por meio dos sonhos, pelo poder dos sacerdotes. O Espiritismo, porém, explica que esse fenômeno é natural e pode estar ao alcance de todos. Podemos, por meio da prece, realizar esse reencontro. Quando sonhamos com os entes queridos, uma emoção inequívoca irá confirmar a realidade do fato, trazendo esperança, alegria e fé no futuro.
Não há medo da morte para quem reconhece a vida eterna.