sábado, 18 de junho de 2011

Espiritismo e Ciência

Gilberto Schoereder

O desenvolvimento científico e tecnológico trouxe uma série de ingredientes importantes para as pesquisas relacionadas ao mundo espiritual. Ainda não se atingiu o ponto ideal nas investigações, mas a aproximação com a ciência tem se mostrado como o caminho mais adequado.

Muitos pesquisadores do espiritismo, espíritas e não-espíritas, entendem que não são realizados experimentos científicos suficientes relativos ao assunto. Na verdade, essa aproximação com a ciência foi um dos preceitos básicos apresentados por Kardec e é uma busca incessante da maior parte dos espíritas.

No entanto, sendo as experiências suficientes ou não, não resta dúvida de que existem muitas pessoas procurando estreitar essa ligação, procurando novos métodos de pesquisa e experimentação científica, assim como de comprovação dos fenômenos ligados ao espiritismo. Exemplos claros dessa busca são os trabalhos do dr. Ian Stevenson, nos EUA, e as pesquisas relacionadas à transcomunicação instrumental que, no Brasil, tem Sonia Rinaldi como destaque.

Desde que os fenômenos começaram a se tornar mais populares, em meados do século XIX, inúmeros cientistas dedicaram seu tempo e esforços para tentar registrar, mensurar e determinar parâmetros cientificamente aceitáveis para eles. A Sociedade Psíquica da Inglaterra foi um dos pontos centrais dessas pesquisas, realizando dezenas, senão centenas de experiências. Desse empreendimento originaram-se tanto as pesquisas parapsicológicas atuais, quanto as que se encontram mais ligadas ao espiritismo propriamente dito.

Mas, hoje, muitos espíritas reclamam que essas mesmas experiências, já com mais de cem anos de vida, continuam sendo apresentadas como referência e comprovação dos fenômenos, o que não é mais aceitável tendo em vista a evolução da ciência e da própria tecnologia que pode ser aplicada nas investigações.

A realização de experimentos com transfotos, transcomunicações, experiências de quase-morte, reencarnação, terapia de vidas passadas e algumas aproximações entre a ciência moderna e as idéias espíritas, mostra que existem, de fato, pessoas e grupos procurando renovar esse aspecto do espiritismo. O problema maior, parece, é a dificuldade em fazer com que esses esforços sejam reconhecidos pela chamada “ciência oficial”.

Em muitos casos, também, as pesquisas são realizadas por grupos autônomos, não reconhecidos pela ciência e, mesmo quando os resultados apresentados são muito interessantes, as pesquisas não são absorvidas pelos grandes centros de pesquisa, como as universidades, não ganhando o “status de credibilidade” e visibilidade necessários no mundo acadêmico.
Reencarnação

Uma pesquisa que chamou a atenção do mundo acadêmico foi a do dr. Ian Stevenson, médico psiquiatra que, por 37 anos pesquisou possíveis casos de reencarnação, viajando o mundo inteiro à procura de relatos e evidências, coletando histórias de crianças que afirmam terem recordações de vidas passadas.

Dr. Stevenson ouvia o que as crianças tinham a dizer, guardava as informações importantes referentes a lugares e pessoas com as quais elas teriam entrado em contato numa vida anterior, e se dirigia a esses locais para nova coleta de dados, que comparava com os anteriores. As crianças não se encontravam sob hipnose – um aspecto que é bastante combatido, por exemplo, quando se fala de regressão a vidas passadas – e as informações podiam, em geral, ser facilmente comprovadas, uma vez que elas não se referiam a épocas muito distantes como o antigo Egito.

Tom Shroder, editor do jornal The Washington Post, escreveu o livro Almas Antigas relatando sua experiência com o dr. Stevenson, a quem acompanhou em suas peregrinações pelo mundo. Segundo ele, uma das coisas que chamaram sua atenção no trabalho do cientista foi a forma minuciosa com que ele checa todas as informações. Além disso, percebeu que cientistas de vários países tinham o dr. Stevenson em alta consideração, ainda que o assunto que ele tratava fosse considerado “difícil”. Claro que não se trata de uma postura que se estende a toda a comunidade científica: alguns colegas o consideraram um precursor, por estar pesquisando a reencarnação sob bases científicas e enfrentando um verdadeiro tabu; outros se colocaram totalmente contrários às pesquisas, e até mesmo à idéia de se pesquisar um assunto como esse.
Dificuldades

Dr. Ian Stevenson também tem uma postura incomum entre os cientistas, criticando a postura da ciência em muitos casos. “Para mim”, ele diz, “tudo em que os cientistas acreditam agora está aberto a mudanças, e eu fico consternado ao perceber que muitos cientistas aceitam o conhecimento atual como algo imutável”. Ele lembra que, no passado, os hereges que negassem a existência das almas eram queimados; hoje, os cientistas “queimam” aqueles que afirmam que as almas existem.

Shroder levanta algumas questões pertinentes no que diz respeito à relação da ciência com temas como a reencarnação. Uma é que esse tipo de pesquisa não permite que se faça uma investigação em laboratório, uma vez que estamos nos referindo a fenômenos ou declarações espontâneas. “Tais casos”, ele explica, “só podem ser investigados como se faria com um crime, ou um processo legal – com entrevistas, cruzando informações de várias testemunhas com evidências documentadas. Embora isso possa ser feito com bastante cuidado, alguém sempre pode descartar o caso como ‘evidência fantasiosa’ e, portanto, não confiável”.

Também faltam evidências sobre quaisquer mecanismos através dos quais a reencarnação de tornaria possível, e o próprio dr. Stevenson não afirma possuí-las ou que possa detectar a alma com instrumentos objetivos. Junta-se a isso o já conhecido conservadorismo da ciência, “uma tendência de não encarar com seriedade qualquer evidência que desafie o atual entendimento de como o mundo funciona”.

As dificuldades são reais, uma vez que, para a ciência, o que conta é a experimentação, a existência de provas conclusivas e a possibilidade de repetir experimentos em ambientes diferentes. O problema surge quando se fala da maioria dos fenômenos paranormais, mas dr. Stevenson – como outros pesquisadores da área, inclusive o brasileiro Hernani Guimarães Andrade – sabe que para tratar desses assuntos é preciso agir e pensar de maneira heterodoxa, caso contrário não se chega a lado algum.
Tecnologia Para o Além

A utilização de novas tecnologias nas investigações do mundo espiritual começou, na verdade, no final do séc. XIX, com ninguém menos do que Thomas Alva Edison (1847-1931). Afirma-se que Edison, que desenvolveu a lâmpada, inventou o fonógrafo, em 1877, movido pelo desejo de gravar a voz de sua falecida mãe, o que não conseguiu principalmente devido à precariedade do aparelho.

Já em 1936, o físico Oliver Lodge (1851-1940), um dos precursores da radiocomunicação, afirmou que os progressos na área da eletrônica tornariam possível desenvolver um aparelho que captasse a voz dos mortos. Essa “previsão” começou a se tornar realidade em 1959, quando o psíquico sueco Friedrich Jurgenson conseguiu gravar em fita o que chamou de “vozes paranormais” ou “psicofania”. Ele chegou a isso por acaso, quando gravava cantos de pássaros num bosque e, ao ouvir a reprodução, percebeu murmúrios semelhantes a vozes humanas. A partir daí, realizou uma série de experiências tentando tornar aquelas vozes mais nítidas, conseguindo identificar mensagens e informações em vários idiomas.

O psicólogo Konstantin Raudive deu seqüência aos experimentos, realizando milhares de gravações de vozes; e outros pesquisadores conseguiram aprimoramentos dos aparelhos, como foi o caso do engenheiro austríaco Franz Seidl, com seu psychofon, e do norte-americano George Meek, com o spirocom.

Entretanto, para a brasileira Sonia Rinaldi, esses aparelhos já estão ultrapassados. Sonia é coordenadora da Associação Nacional dos Transcomunicadores e, provavelmente, a maior autoridade nacional em transcomunicação. Ultimamente, a comunicação com os espíritos tem sido feitas por meio de computadores e aparelhos bem mais sofisticados, que eliminam a possibilidade de interferência externa. As gravações de vozes em computador são realizadas sem microfone, com o registro sendo feito diretamente no hardware. Da mesma forma, no computador também podem surgir imagens. Utiliza-se um tubo de raios catódicos e não uma televisão, que poderia captar imagens emitidas aqui mesmo da Terra. Para obter a credibilidade necessária, Sonia envia os resultados desses contatos realizados através de aparelhos para uma análise rigorosa de especialistas de universidades, e os laudos técnicos são colocados à disposição de quem se interessar.
Busca Incessante

O próprio George Meek já havia sugerido que os sistemas eletromagnéticos não seriam uma ponte confiável com o mundo dos espíritos, que deveria possuir um tipo de energia ainda desconhecido para nós. A parapsicologia segue por um caminho semelhante ao analisar a questão, entendendo que a transcomunicação pode estar sendo feita por meio de um tipo de energia mental, psíquica ou espiritual, que ainda não conseguimos captar, medir e estudar convenientemente, por não possuirmos a aparelhagem necessária.

Muitos dizem, ainda, que o fenômeno diz respeito à própria mente humana, atuando no ambiente que a cerca. Assim, as mensagens poderiam estar vindo dos vivos, e não dos mortos. Seja como for, mesmo no ambiente espírita a transcomunicação não é aceita de forma incontestável, mas é considerada a proposta cientificamente mais bem embasada até agora, e pode ser o caminho para se estabelecer uma relação com o mundo dos espíritos que não dependa da intermediação dos médiuns.

Também foi pensando no estabelecimento dessa ponte entre os dois mundos que Geraldo Medeiros também começou a se dedicar às chamadas transfotos, que ele define como “a capacidade ou a possibilidade que um filme fotográfico tem de se sensibilizar com a exposição, captando uma imagem que não estaria dentro do contexto visual normal daquele cenário”.

O fato é que, muitas vezes, têm-se tirado fotos em que aparecem imagens estranhas, geralmente pontos de luz ou imagens esbranquiçadas, e até mesmo imagens de pessoas já falecidas. O que Medeiros procurou fazer é obter um controle mais rigoroso dessas fotos, justamente porque é comum se dizer que não existe um controle científico adequado. “Operamos dentro de um ambiente totalmente controlado”, ele explica. A máquina fotográfica é colocada dentro de uma sala sem pessoas, isolada eletrônica e termicamente, evitando influências externas. O resultado é a obtenção de imagens que não deveriam estar ali, como se existisse a presença de alguém no local.

Para muitos cientistas, isso pode não parecer suficiente, mas todas essas pesquisas que estão sendo realizadas mostram, no mínimo, que um fenômeno importante está ocorrendo, e que merece mais atenção.

Para a maioria dos investigadores ligados ao espiritismo, os resultados obtidos não só podem como devem ser entendidos como provas da existência de outras dimensões de existência, e as dificuldades no contato com essas dimensões devem ser creditadas à nossa incapacidade em acessá-las.

Seguindo essa linha de raciocínio, portanto, é uma questão de tempo até que se desenvolvam os instrumentos e conhecimentos mais adequados para esse desafio.
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