segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Diálogos Espíritas

As sociedades científicas nem sempre têm ao seu dispor os instrumentos próprios para as observações e, no entanto, não deixam de encontrar assuntos de discussão. À falta de poetas e de oradores, as sociedades literárias lêem e comentam as obras dos autores antigos e modernos. As sociedades religiosas meditam as Escrituras. As sociedades espíritas devem fazer o mesmo e grande proveito tirarão daí para seu progresso, instituindo conferências em que seja lido e comentado tudo o que diga respeito ao Espiritismo, pró ou contra. Dessa discussão, a que cada um dará o tributo de suas reflexões, saem raios de luz que passam despercebidos numa leitura individual.
A par das obras especiais, os jornais formigam de fatos, de narrativas, de acontecimentos, de rasgos de virtudes ou de vícios, que levantam graves problemas morais, cuja solução só o Espiritismo pode apresentar, constituindo isso ainda um meio de se provar que ele se prende a todos os ramos da ordem social.
Garantimos que a uma sociedade espírita, cujos trabalhos se mostrassem organizador nesse sentido, munida ela dos materiais necessários a executá-los, não sobraria tempo bastante para consagrar às comunicações diretas dos Espíritos. Daí o chamarmos para esse ponto a atenção dos grupos realmente sérios, dos que mais cuidam de instruir-se, do que de achar um passatempo.
(Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, Cap. XXIX, item 347)
No início do século XXI – a Era do Espírito –, mais que nunca, frente aos apelos das fontes de informação e da ciência, vêm se emoldurando novas e arrojadas concepções sobre todos os assuntos, especialmente, o Espírito. O interesse nessa questão vem envolvendo estetas, cineastas, escritores e cientistas. Trazem à baila as temáticas espiritualistas e espíritas recheadas de misticismo e do sobrenatural, abolindo a lógica e convencendo pelo drama e pelas crendices, com fantasias que ainda agradam a infantilidade humana.
Torna-se, então, muito oportuno que incitemos um repensar na metodologia de ensino e aprendizagem nas instituições doutrinárias, a fim de que o conhecimento seja levado para o campo da sensatez e da contextualização, sem os aparatos dos quais precisamos ir dispensando.
Não basta saber muito, é preciso aferir se o que sabemos sobre o Espiritismo está tornando-nos melhores: menos místicos, mais sensatos; menos egoístas, mais bondosos; menos ritualistas, mais fervorosos; menos ortodoxos, mais progressistas; menos materialistas, mais amorosos...
O diálogo aberto que insere o questionamento fraterno é a tônica didática que carecemos no momento. A aceitação tácita e passiva é uma postura pedagógica incompatível com o dinamismo da proposta educacional do Espiritismo. A relação professor-aluno deverá, quanto possível, ser substituída pela forma dialogal, sinérgica, parceira. A pesquisa, o estudo, a utilização das modernas mídias, as dinâmicas de grupo tão atuais, o trabalho em equipe são campos didáticos que oportunizam o debate, a participação pró-ativa e o intercâmbio.
Diálogos Espíritas deve ser um evento permanente, coordenado por facilitadores do ato de pensar, jamais por “expositor de respostas prontas”. O diálogo é a pedagogia do Espírito, porque com ele ensejamos o construtivismo em que cada qual trabalha com seus conteúdos e sentidos, sob a orientação de um facilitador mais experimentado e de boa vontade. Uma didática construtivista, questionadora, em que o membro componente de um sistema não poderá ser apenas um elemento passivo, mas, sim, um agente transformador e integrante de um processo educacional dinâmico que excita o raciocínio, problematiza princípios e opera mudanças éticas. A concepção de um novo modelo pedagógico, para nossas células doutrinárias, é um motivo para urgentes reflexões em favor da causa que abraçamos. O melhor recurso de estudo é o trabalho em grupos, voltados à construção do conhecimento, o qual vem da experiência do fazer, que por sua vez é a vivência de cada qual cooperando com o entendimento de todos.
Temas dos quais guardamos muitas certezas são os mais recomendados para o diálogo, pois os temas polêmicos já são muito debatidos, embora nada nos impeça de revê-los. Nem sempre nossas certezas advêm da fé raciocinada, portanto, abalar nossas certezas é caminho para crescimento, para a aquisição de convicções sólidas, aprovadas pela razão e assimiladas pelo sentimento, a fim de não as abandonarmos nos momentos de prova e dor.
A convivência nos Diálogos Espíritas exigirá tolerância e respeito às diferenças para a aquisição da compreensão.
É fundamental abalar nossas certezas de concepções e abrirmo-nos a análises imparciais, acerca de outras vertentes de conhecimento e informação sobre a diversidade dos assuntos da humanidade, criar pontes de saber entre a cultura espírita e os valores do saber acadêmico, científico e filosófico. Entre nós, nas salas de estudos espíritas, cabe-nos favorecer a dúvida, a consulta, o salutar hábito de discordar sem tornar-se antipático. Aprender a discordar. Discordar com amor, eis o desafio. Discordar com embasamento, eis o dever.

Princípios

Não há uma entidade espiritual, uma organização humana, um médium ou uma fonte de instrução que não possa ser discutida, redargüida e melhorada. Suprimindo o clima de desrespeito, tudo pode e deve ser repensado com fins enobrecedores.
(Cícero Pereira, Unidos pelo amor, p. 176)

O princípio básico dos Diálogos Espíritas é o de que, nada sendo perfeito, tudo pode ser melhorado para ter mais utilidade, permitindo aos debatedores expressarem-se com idéias mais arejadas frente ao relativismo universal, e mais apropriadas à sua segurança e necessidade individual.
Diálogos Espíritas devem ser éticos, frutíferos e funcionais.

* Sua ética, a fraternidade.
* Seus frutos, sensatos.
* Sua função, o crescimento pessoal.

Educar-se para pensar sob uma perspectiva espiritualizante é um desafio de rara oportunidade. Mais significativo que colecionar respostas é aprender a investigar pedagogicamente, filosofar para crescer.

Objetivos

A beleza da reunião de pessoas está em não ter a obrigatoriedade de ser igual, todavia, apenas ser.
(Ivone do Amaral Pereira, Unidos pelo Amor, p. 198)
O objetivo maior de Diálogos Espíritas deve ser a aquisição da sabedoria, diferente de acumular conhecimentos e desenvolver a inteligência. Sábios são aqueles que colocam a inteligência e a informação a serviço de sua melhoria integral e de quantos os rodeiam. Pouco, aliás, nos valerá o debate cujo coração e emoções não sejam, igualmente, parte integrante do processo. Ainda que tais emoções não estejam ajustadas, não devemos temê-las, pois são integrantes do patrimônio moral do nosso grupo debatedor e, como tais, devem ser trabalhadas sem máscaras e com incondicional respeito e fraternidade.
Diálogos Espíritas pretende conduzir o aprofundamento e a liberdade das discussões, proporcionalmente, ao nível de relacionamento que já tenham galgado os membros do grupo. Quanto mais confiança e afinidade, mais possibilidade de êxito. Não havendo essa conquista, será imperioso, pouco a pouco, investir na saúde interpessoal dos conjuntos doutrinários, o que permitirá sempre maior maleabilidade sem quaisquer incidentes indesejáveis. É preciso cristalinidade de opiniões, porque se não opinarmos entre amigos que buscam o crescimento, expondo sinceramente nossos sentimentos, os sufocaremos nos escaninhos “secretos” da mente, podendo conflitos, dúvidas e problemas, com o tempo, converterem-se em virulenta crise da razão, despertando sentimentos enfermiços que inclinam para o desânimo, o isolacionismo e a deserção.
Diálogos Espíritas não tem metodologia centralizada e sim participativa, levando à interiorização. Nos Diálogos Espíritas não haverá perdas, todos devem ganhar. Ganha-se discernimento, experiência, visão, e enseja-se o urgentíssimo espírito de equipe, sem o qual o êxito das atividades de uma agremiação espírita está fadado a se guardar nos estreitos limites do imediatismo e das relações autoritárias.
Diálogos Espíritas tem por objetivo o diálogo, a troca, o “abalar das certezas”, a renovação e vitalização das concepções, a ampliação da visão sobre temas da vida.
Diálogos Espíritas não é apenas um círculo de reuniões onde se filosofa e estuda, mas um hábito mental de superar crendices sem fundamento, eximindo-nos do “fanatismo pacífico” de cada dia, libertando-nos das cadeias dos raciocínios comuns e aprendendo a construir uma seqüência de idéias afinadas com a lógica de Deus, uma visão que escapa até mesmo de alguns padrões dogmatizados dentro do próprio movimento espírita. Uma visão de eternidade.
Diálogos Espíritas não tem medo do novo; de duvidar, com o desejo de aprender. Pretende “treinar a compreensão”; permitir o valor de todos em favor da busca de cada individualidade.
Diálogos Espíritas pretende construir uma convivência fraterna entre os seus participantes, aquela que educa e liberta. Pretende contribuir para a formação da mentalidade alteritária e solidária, desafios de todos nós, trabalhadores da Seara Bendita.
Diálogos Espíritas pretende promover preciosas aquisições pessoais, tais como:


1. obter novos enfoques para temas supostamente esgotados;despertar o interesse ao estudo, à pesquisa e ao intercâmbio social;
2. ter motivação para desenvolver pesquisas;
3. aprender a aprender;
4. aprender a fazer;
5. aprender a ser;
6. aprender a viver juntos;
7. aprender a dialogar e discordar de idéias sem sermos contra quem as apresentam;
8. promover descobertas, reciclagem;
9. despertar interesse ao estudo, à pesquisa e ao intercâmbio, o desejo de aprender e não o de convencer ou converter;
10. aprender a tecer crítica, externar pontos de vista, arrolar fundamentação teórica, ouvir “religiosamente” a opinião alheia;
11. aprender a ouvir sem sentenciar juízos imediatos;
12. debater, discordar “sem gostar menos”.

Quatro pilares da educação para o século 21

Diálogos Espíritas, como estratégia pedagógica,deve ser desenvolvido sob a visão espírita associada aos Quatro pilares da educação para o século 21, que fluem do Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors .
Os Quatro pilares da educação para o século 21 são a seguir resumidos, adaptados para os propósitos de Diálogos Espíritas:

* Aprender a conhecer – combinando uma cultura geral, suficientemente vasta, com a possibilidade de trabalhar em profundidade um pequeno número de matérias. O que também significa: aprender a aprender, para beneficiar-se das oportunidades oferecidas pela educação ao longo de toda a vida. Aprender sempre, continuamente.
* Aprender a fazer – a fim de adquirir, não somente uma qualificação profissional mas, de uma maneira mais ampla, competências que tornem a pessoa apta a enfrentar numerosas situações. Mas também aprender a fazer, no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho que se oferecem às pessoas. Teoria e prática juntas. Aprender a assimilar o fruto dos estudos e pesquisas em benefício do desenvolvimento pessoal, da reforma íntima.
* Aprender a ser – para melhor desenvolver a sua personalidade e estar à altura de agir com cada vez maior capacidade de autonomia, de discernimento e de responsabilidade pessoal. Para isso, não negligenciar na educação nenhuma das potencialidades inatas de cada espírito, encarnado ou desencarnado: ética, memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se, generosidade, fraternidade.
* Aprender a viver juntos – desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências – realizar projetos comuns e preparar-se para gerir conflitos – no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz. Aprender a trabalhar em equipe. Aprender a ser alteritário(a) e altruísta.


Quando e onde

As instituições espíritas podem – e devem – realizar Diálogos Espíritas, em suas dependências, de acordo com as suas disponibilidades, usando espaços ociosos e pessoas de boa vontade que tenham formação espírita e mente aberta para o novo, o inovador, o contraditório, a criatividade.
Diálogos Espíritas podem, também, ser realizados por grupos de espíritas, fora do centro espírita, a fim de possibilitar a participação de pessoas não espíritas que se interessem pelos temas em debate.
A periodicidade pode ser semanal, quinzenal ou mensal, dependendo da disponibilidade das pessoas envolvidas no projeto. Recomenda-se que as reuniões tenham, no máximo, noventa minutos de duração, com hora certa para início e término.
Os livros Atitude de Amor, Seara Bendita, Unidos pelo Amor e outros psicografados por Wanderley Soares de Oliveira e por outros médiuns, sintonizados com a fase de amadurecimento do Espiritismo, devem servir de inspiração para os temas para os Diálogos Espíritas, tendo os livros da Codificação como base.