sábado, 13 de novembro de 2010

O Caso de Aprígio - Chico Xavier e Waldo Vieira (médiuns) Hilário Silva (espírito)

Quando cheguei ao leito de Alfredo Cortes, debatia-se o velho entre as raias da morte.

Casa cheia.

Afastei os populares que se aglomeravam ao pé do quarto, e pedi garantias para examiná-lo severamente.

O Coronel Cortes fora vitima de traiçoeiro golpe e agonizava sem esperança.

O punhal atingira o coração e, condoído, sentei-me, desarvorado.

Sobre os lençóis empapados de sangue, jazia o ancião inerte.

- Coronel – perguntei, ansioso -, quem lhe fez isso?

O moribundo buscou, em vão, mover os olhos na direção do grande cofre violado e ciciou uma palavra.

Colei o ouvido aos lábios quase imóveis, e depois de muito esforço, escutei um nome:

- A... pri... gio...

Senti-me empolgado de horror. Aprígio era o rapaz que ele amava por filho. Naquele minuto rápido, lembrei-me da história dele. Fora enjeitado à porta de Cortes, quando D. Alzira, a esposa, ainda estava na Terra. O casal sem filhos exultara. Muita vez surpreendera eu os amigos em passeio para distrair a criança. Aprígio crescera mimado, respeitado, protegido. Não quisera cursar estabelecimento de ensino superior; entretanto, recebera instrução suficiente para desempenhar profissão respeitável. Costumava encontrá-lo, à noite, ao pé de amigos desocupados, quando de minhas visitas inesperadas aos casos de urgência. Nunca poderia suspeitar, porém, de que estivesse caminhando para semelhante loucura.

Não consegui, no entanto, mais largo tempo para a reflexão.

A vitima cravou em mim os olhos embaciados, conquanto lúcidos, e estremeceu.

Chegara o fim.

Emocionado, abri passagem, de modo a cientificar meu apontamento à polícia, mas a sala contígua povoava-se de vozes ásperas.

Dei alguns passos e estaquei.

- É ela! É ela!

Madalena Leandro, pobre lavadeira do povo, era puxada pelos cabelos.

Aprígio estava à frente do grupo amotinado, gritando com veemência.

Comuniquei o óbito ao chefe do destacamento policial e busquei agir com serenidade, tomando informes.

Madalena fora surpreendida, no telhado, mostrando enorme aflição.

Acusada, não se defendera. Tudo inclinava a autoridade a crer fosse ela a homicida.

Intrigado, avancei para a infeliz, perguntando:

- Diga, Madalena! Confesse! Foi realmente você?

A desditosa mulher, em silêncio, fixou em mim os olhos agoniados, à maneira de triste animal sentenciado à morte.

- Foi você?

Havia tamanho imperativo em minha pergunta, que a mísera, como que hipnotizada, confirmou sob o pranto pesado a lhe escorrer do rosto:

- Sim... fui eu!

- Assassina! Assassina! – exclamou Aprígio, colérico. – E o dinheiro? Onde está o dinheiro?

Como a acusada não respondesse, o moço precipitou-se de punhos cerrados e, a esmurrar-lhe o peito, bramia desesperado:

- Diga! Diga! Maldita! Maldita!

A infeliz tombou de joelhos e rogou, súplice:

- Piedade! Pelo amor de Deus, tenham piedade de mim!

Buscava debalde interferir, para sustar novo crime, quando o rapaz lhe aplicou um pontapé à altura dos pulmões e a lavadeira rolou, desgovernada.

O sangue borbotava-lhe agora da boca trêmula e, revoltado, consegui acalmar os ânimos.

Não permitiria se alongasse a agressão.

E ouvindo-me o arrazoado, o responsável pela ordem ponderou:

- Doutor, compreendemos a sua indignação, mas, afinal de contas, o pobre rapaz está possesso de angústia... Acaba de perder o pai e, sinceramente, no lugar dele, não sei se me comportaria de outra maneira...

Entendi que a hora não admitia réplicas e solicitei fosse Madalena conduzida à prisão, para as medidas aconselháveis.

Inquieto, continuei de atenção voltada para o assunto.

Perseguida por Aprígio, a infortunada mulher foi submetida a inquirições humilhantes.

Sempre que interrogada, declarava-se autora do estranho homicídio, mas, se instada a dizer algo sobre o furto, calava-se, estremunhada e, com isso, experimentava maior punição.

Procurei o juiz indicado para o processo, em segredo amistoso, esclarecendo-o quanto a minha observação, em caráter de confidência. E após atender-me, o magistrado, gentil, promoveu acareações.

Aprígio foi chamado a depor, diante da ré.

E fazendo força para alcançá-lo na consciência não vacilei arrolar-me entre as testemunhas.

Percebendo-me, todavia, a atitude, explicara que o velho, embora pacífico, desde algum tempo mostrava sintomas de alienação mental evidente. Vivia desmemoriado, agastadiço. Esquecia nomes familiares, truncava referências. E acentuava que não tinha dúvidas quanto à culpabilidade de Madalena. Narrava, com ênfase, como a encontrara em telhado vizinho, ansiosa, a observar os efeitos da infâmia que praticara. Dois soldados e ele próprio haviam visto. Esgueirara-se pelo quintal a fora, depois do crime. Decerto, enterrara o dinheiro roubado em algum lugar e, em seguida, espreitava, buscando possivelmente surrupiar nova presa. A residência do coronel tinha jóias e alfaias, relógios e roupas finas. Madalena fora, em outro tempo, lavadeira da casa. Conhecia passagens e escaninhos.

A acusada ouvia, em lágrimas, silenciando...

Se alguém perguntava, ao fim do interrogatório:

- Mas foi você? - Madalena chorava muda, fazendo um gesto confirmativo.

O sofrimento, contudo, alquebrava-lhe as forças.

Hemoptises apareciam, amiudadas.

Anotando-me o interesse pela infeliz, a autoridade judiciária permitiu pudesse, de minha parte, hospitalizá-la para o tratamento preciso.

A acusada, entretanto, como se houvesse desistido da existência, não mostrou qualquer reação favorável.

Ao cabo de vinte dias, providenciava-lhe o enterro de última classe.

A lavadeira não pudera esperar o julgamento definitivo.

E a vida continuou na marcha irrefreável.

Por muito tempo, demorei-me ainda entre os homens, e assisti à ascensão e à queda de Aprígio.

Dono de regular fortuna que herdara em testamento de Alfredo Cortes, prosperou a princípio, para cair, mais tarde, em descrédito, depois de largos anos em jogatina e dissipação. Findo vasto período de enfermidade e desencanto, morrera, ignorado, na sombra do hospício.

Um novo dia, entretanto, chegou para mim também e vi-me de mãos vazias, no retorno ao plano espiritual.

A morte do corpo renovara-me a alma e, em pleno acesso a lutas diferentes, dentre os amigos que me vieram trazer o abraço afetivo, Madalena surgiu, nimbada de luz.

Conversamos, alegremente, e porque o passado me batesse em cheio na tela da memória, formulei a pergunta discreta... Afinal, onde estava a verdade? Não fora Aprígio o autor da tragédia?

A heroína, porém, fitando-me de frente, tudo elucidou, respondendo calma:

- Doutor, nada pude falar, porque Aprígio, o infeliz criminoso, era meu filho...