sábado, 19 de março de 2011

Trajédia no Japão - Destruição, transformação, regeneração e Progresso

Correio Fraterno
Escrito por Eliana Haddad

As imagens do forte terremoto de 8,9 graus de magnitude, provocando tsunamis que castigaram o Japão, matando milhares de pessoas, são tristes e fortes e estão marcando o planeta Terra. A tragédia emociona o mundo, num misto de revolta e indignação. Afinal, é muito difícil para quem não acredita na reencarnação e na lei de causa e efeito aceitar o fato da morte coletiva de tantas pessoas, independentemente de idade ou condição moral e social. Para os menos avisados, todos teriam sido, coitados, vítimas de uma grande surpresa – um horror, um acidente lamentável, um castigo de Deus sem explicações. Como tudo, quando não se tem o sentido espiritual da vida, esses fatos são simplesmente assustadores (e desanimadores).

Explica a doutrina espírita, porém, que é da lei da natureza a destruição, pois é preciso que tudo se destrua para renascer e se regenerar. Muitas vezes, o que chamamos de destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação. É preciso que se compreenda que a destruição é sempre da matéria. É essa mesma lei que nas desencarnações age inteligentemente na parte física, acabando com “um invólucro”, como explicaram os espíritos a Kardec, que é “simples acessório” e não a parte essencial do ser pensante - o princípio inteligente, que não se pode destruir e que se elabora nas metamorfoses diversas por que passa.

Tudo muito bem planejado, a natureza obedece ainda a lei de conservação, através da qual se promove o equilíbrio para se evitar a destruição antes do tempo necessário. Assim, por instinto, cumpre-nos também prolongar sempre a vida para desempenharmos nossas tarefas. Outro ponto importante é que a necessidade da destruição é proporcional ao estado mais ou menos material dos mundos, diminuindo portanto entre os homens, à medida que o espírito supera a matéria. Ë por isso que - como explicam os espíritos - depois do horror da destruição, muitas vezes vemos surgir o desenvolvimento intelectual e moral.

O fato de compreendermos a lei da destruição, porém, não nos dá o direito de nos tornarmos alheios aos sofrimentos da Humanidade, porque acima de tudo é preciso que exercitemos sempre o maior mandamento, tão bem exemplificado por Jesus na Terra e que resumiu todas as leis anteriores - o amor.

É nosso dever fazer brilhar essa luz, como tão bem nos ensinou Jesus, através da caridade, da nossa colaboração fraterna, colocando o nosso entendimento como instrumento de consolo e auxílio ao sofrimento do nosso próximo. “A piedade é amor, o amor é devotamento; o devotamento é o esquecimento de si mesmo; e esse esquecimento, essa abnegação em favor dos infelizes, é a virtude por excelência”, diz O evangelho segundo o espiritismo. Mas, não basta apenas sentir o sofrimento do outro, a piedade deve ser muito mais que isso, pois exige uma ação – seja ela de cunho material ou espiritual. “Temei ficar indiferentes, quando puderdes ser úteis”, diz o espírito Michel (Bordeaux, 1862), afirmando ainda que longe de ser um sentimento perturbador, a piedade é o sentimento mais apropriado a nos fazer progredir, pois nos possibilita domar nosso egoísmo, incentivando-nos a humildade, a beneficência e o amor ao próximo.

Os flagelos são provas que dão ao homem oportunidade de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo.

Allan Kardec perguntou aos espíritos qual seria a finalidade de Deus nos flagelos destruidores. “Para fazê-la progredir mais depressa”, responderam, “pois a destruição é uma necessidade para a regeneração moral dos Espíritos, que, em cada nova existência, sobem um degrau na escala do aperfeiçoamento. Preciso é que se veja o objetivo, para que os resultados possam ser apreciados. Não podemos apreciar a destruição do nosso ponto de vista pessoal porque os qualificamos de flagelos, por efeito do prejuízo que nos causam. Essas subversões, porém, são freqüentemente necessárias para que mais pronto se dê o advento de uma melhor ordem de coisas e para que se realize em alguns anos o que teria exigido muitos séculos”.

Vale aqui ressaltar que tais intempéries não são um capricho de Deus para castigar a Humanidade, mas algo que está dentro da perfeição de suas leis naturais, que permitem a existência desses transtornos, justamente para apressar um desenvolvimento integrado no processo geral de evolução a que todos estamos determinados a cumprir. Esses acontecimentos que a princípio podem ser muito mal compreendidos pela falta de entendimento das Leis Divinas, permitem – no mínimo - que o homem sinta a sua fraqueza e reflita sobre os seus enganos, acelerando assim seu conhecimento do bem e do mal.

Se nesses flagelos, tanto sucumbe o homem de bem como o perverso, nisto também está a justiça de Deus. A maior dificuldade na compreensão dessas situações é o nosso pensamento materialista, pois ensina a doutrina espírita que o mundo espiritual preexiste e sobrevive a tudo. “Os corpos são meras vestes com que eles (espíritos) aparecem no mundo. Por ocasião das grandes calamidades que dizimam os homens, o espetáculo é semelhante ao de um exército, cujos soldados, durante a guerra, ficam com seus uniformes estragados, rotos, ou perdidos. O general se preocupa mais com seus soldados do que com os uniformes deles. Não podemos considerar a vida, simplesmente qual ela é, mas conforme representa seu verdadeiro objetivo em relação ao infinito. Em outra vida, as vítimas desses flagelos acharão ampla compensação aos seus sofrimentos, se souberem suportá-los sem murmurar.

Interessante atentar para a observação dos espíritos que muito bem respondem à dúvida quanto se não poderiam ser consideradas vítimas as pessoas atingidas por flagelos. “Venha por um flagelo a morte, ou por uma causa comum, ninguém deixa por isso de morrer, desde que haja soado a hora da partida. A única diferença, em caso de flagelo, é que maior número parte ao mesmo tempo”. Explicação totalmente de acordo com os fatos noticiados pela imprensa de casos - tidos erroneamente como sorte, coincidência, acaso ou milagre - de pessoas que se salvaram de grandes acidentes coletivos.

Nada acontece por acaso, explica a doutrina dos espíritos. Em parte, é dado ao homem intentar contra os flagelos que o afligem, por isso muitos resultam da imprevidência e da falta de amor do homem. Não estaria a humanidade desrespeitando essa morada planetária, agredindo seu equilíbrio natural? Que planeta estamos preparando para as próximas reencarnações?

À medida que adquire conhecimentos e experiência, o homem vai podendo afastar naturalmente alguns flagelos, isto é, prevenir, se lhes sabe pesquisar as causas. Contudo, entre os males que afligem a Humanidade, alguns há de caráter geral, que estão nos decretos da providência e dos quais cada indivíduo recebe, mais ou menos, o contragolpe. A esses nada pode o homem opor, a não ser sua submissão à vontade de Deus. Esses mesmos males, entretanto, ele muitas vezes os agrava pela sua negligência.

Diz O livro dos espíritos que na primeira linha dos flagelos destruidores, naturais e independentes do homem, devem ser colocados a peste, a fome, as inundações, as intempéries fatais às produções da terra. O homem, porém, tem encontrado no próprio progresso científico-tecnológico meios de impedir, ou, quando menos, de atenuar muitos desastres. Muito mais fará pelo seu bem-estar material, quando souber aproveitar-se de todos os recursos da sua inteligência e quando, aos cuidados da sua conservação pessoal, souber aliar o sentimento de verdadeira caridade para com os seus semelhantes.