terça-feira, 12 de abril de 2011

Justiça Divina - Psicografias em Tribunais

Débora Rabelo

Nos anos 70 e 80 as psicografias do médium Francisco Cândido Xavier causariam a maior reviravolta de todos os tempos nos tribunais. Pela primeira vez, a vítima (desencarnada) dava seu relato e inocentava o acusado.

Os casos de Goiás e Mato Grosso do Sul tiveram repercussão internacional, devido as circunstâncias dos acontecimentos. Aos que acreditavam ser obra do acaso, recentemente, através de outros médiuns, as vítimas deram sua versão inocentando os acusados.

Fatos inexplicáveis para alguns, justiça divina para outros. Em maio de 1976 na cidade de Goiânia de Campina José Divino Nunes,18 anos é acusado de matar Maurício Garcez Henriques, 16 anos. Nunes jurou inocência o tempo todo. Mas, a família de Henriques, católica não aceitava a perda do filho, queria a condenação de Nunes. Apesar da religião católica, os pais do jovem morto foram buscar palavras de consolo com o espírita Chico Xavier.

Durante meses os Henriques seguiam a mesma prossissão de milhares de pessoas em busca de ajuda até Uberaba/MG. Em 1978, Maurício ressurge com a primeira carta para família e que, inocentava José Divino. Com breves palavras o jovem levava força aos familiares. Segundo Maurício, o fato havia ocorrido da seguinte forma:

“O José Divino nem ninguém teve culpa em meu caso. Brincávamos a respeito da possibilidade de ferir alguém pela imagem no espelho. Sem que o momento fosse para qualquer movimento meu, o tiro me alcançou, sem que a culpa fosse do amigo ou minha mesmo. O resultado foi aquele. Se alguém deve pedir perdão sou eu mesmo, porque não devia ter admitido brincar em vez de estudar. Estou vivo e com muita vontade de melhorar. “
Com a psicografia apresentando uma assinatura semelhante a que fora feita na identidade, o texto causava perplexidade na família. Apesar disso, o senhor Henriques desejava a condenação de Nunes. Então, em 12 de maio de 1979, próximo ao Dia das Mães, Maurício faz um apelo ao pai através de outra carta com a seguinte mensagem:

“ Peça ao meu pai que, no íntimo, aceite a versão que forneci do acontecimento que me suprimiu o corpo físico. Não se procure culpa em ninguém.”

Diante de mais um auxílio vindo da espiritualidade, os advogados colocaram a psicografia junto com assinaturas e cartas de Maurício no processo a ser analisado pela justiça. A versão apresentada pelos advogados seguia a seguinte defesa:

“A vítima Maurício Garcez Henriques, desencarnada, envia mensagem de tolerância e magnitude espiritual, inocentando seu amigo José Divino e dizendo que ninguém teve culpa em seu caso, tudo através do remontado médium Francisco Cândido Xavier. ”
O juiz Orimar de Bastos proferiu então, a seguinte sentença datada a 16 de Julho de 1979:

“Temos que dar credibilidade à mensagem (de Chico Xavier), apesar de a Justiça ainda não ter merecido nada igual, em que a própria vítima, após sua morte, vem revelar e fornecer dados ao julgador para sentenciar. Ela isenta de culpa o acusado, fala da brincadeira com o revólver e o disparo da arma. Coaduna este relato com as declarações prestadas pelo acusado.”

A decisão final foi:

“Julgamos improcedente a denúncia para absolver, como absolvido temos, a pessoa de José Divino Nunes.”

A situação, antes nunca vista em nenhum tribunal, chegou ao conhecimento internacional. Os jornais americanos, National Enquire e Physic News noticiaram o inédito caso. O juiz ainda seria alvo de entrevistas pela sentença inédita e também pela decisão em aceitar a psicografia como prova mesmo assumindo a religião católica. Assim como o magistrado, Chico Xavier ao ser questionado pelo fato declarou:
“ ...Como cristão acredito que, se a mensagem de alguém que se transferiu para a Vida Espiritual demonstrar elementos de autenticidade capazes de interessar uma autoridade humana, essa mensagem é válida para qualquer julgamento.”
O que parecia ter sido mera obra do acaso para os descrentes da Doutrina Espírita, voltaria a ser tema de discussão novamente nos anos 80. Desta vez, em 1982, a vítima era o Deputado Federal Heitor Alencar Furtado. Na época com 26 anos.
Heitor fora assassinado momentos depois de ter estado em um comício. Enquanto relaxava no acostamento, após viajar vários quilômetros, leva um tiro no peito. O responsável era o policial José Aparecido Branco, conhecido como Branquinho.
Na época, várias autoridades como Ulysses Guimarães, Figueiredo, Maximano da Fonseca e Tancredo Neves deram suas palavras de indignação pedindo justiça. A imprensa condenava o policial. Em carta psicografada por Chico Xavier a resposta simples e direta:
“O disparo foi acidental”.

O pai da vítima, Alencar Furtado então diz:

“ As declarações são mesmo de meu filho”.

Em 1984 a sentença: O tiro havia sido acidental. Assim, o magistrado classificou o crime como homicídio simples. Decorrente de negligência, condenando o réu a 8 anos e 20 dias.

O segundo caso na mesma década ocorreu com a ex-miss Campo Grande, Gleide Dutra de Deus. Ela foi assassinada pelo marido Francisco João de Deus. Meses depois do fato, Francisco procura Chico Xavier em busca de “socorro”. Em carta psicografada, a versão de Gleide:
“ Em carta escrita por Chico Xavier, para garantir ter sido vítima mesmo de um tiro acidental, disparo quando seu marido tirava a arma da cintura.’’

O fato na época teve validada a situação por enfermeiras que haviam atendido a vítima no hospital. Veredito: absolvição por 7 votos a 0.

Algumas pessoas afirmaram que, após o desencarne do médium Chico Xavier, tais fatos não voltariam a acontecer. O caso ocorrido na década de 90 com resolução a partir de 2000 e outros ocorridos depois de 2003 comprovam o contrário. A mediunidade, como afirmava Allan Kardec (codificador da Doutrina Espírita) é uma faculdade existente em todos os seres humanos, em maior ou menor grau de intensidade. A importância da psicografia ou orientação espiritual como é também chamada nos centros espíritas vai além de um julgamento, traz paz e alívio a dor de milhares de pessoas.

São Paulo, 1997, o comerciante Paulo Roberto Pires é assassinado com mais de 10 tiros. O acusado, Milton dos Santos, que iria a julgamento por crime qualificado, foi inocentado por Pires. O fato incomum para a justiça ocorreu na cidade de Ourinhos.

A carta enviada pela vítima foi recebida através do médium Rogério Leite contendo 11 folhas. Além da mensagem, a defesa utilizou fotos para demonstrar como se desenvolvia uma sessão espírita e também do médium, trabalhador do Centro Espírita Paulo Ferreira. Na psicografia Pires relatava:

"inocentem o Milton, para que ele prossiga a sua vida aproveitando-se da observação dos fatos para dirigir melhor sua família".

O morto não aponta, no entanto, o verdadeiro culpado. Diz apenas esperar "que os culpados pela minha morte do corpo paguem suas culpas. "

No fato em questão, desconhece-se a absolvição do acusado. A psicografia foi feita apenas em 2004. Mesmo assim, a justiça temendo reações, decidiu por levar a fundo a carta deixada na intenção de que uma perícia confirme ou descarte as assinaturas da vítima contidas na mensagem.

O Rio Grande do Sul também foi palco de polêmica envolvendo ajuda espiritual para a resolução de um crime. Através de algumas psicografias a acusada Iara Barcelos, 63 anos foi inocentada do assassinato do tabelião Ercy da Silva Cardoso, 71 anos.

O crime ocorreu em 2003 na cidade de Viamão. Na época, Ercy foi morto com dois tiros na cabeça. A acusada segundo a justiça manteve um relacionamento amoroso com o tabelião.

Com a psicografia, Iara foi absolvida por 5 votos a 2. A mensagem foi lida durante o julgamento pelo advogado da acusada, Lúcio de Constantino que tinha como teor a seguinte descrição da vítima:

"O que mais me pesa no coração é ver a Iara acusada desse jeito, por mentes ardilosas como as dos meus algozes (…). Um abraço fraterno do Ercy ".

Segundo relatos, teria sido o marido da acusada a buscar ajuda espiritual. E inclusive, recebeu uma carta também da vítima. Como a psicografada foi colocada no processo ainda em tempo hábil, a prova foi aceita.

As orientações (psicografias) são uma prática comum nos centros espíritas e também a seus adeptos e simpatizantes. Para estes, as cartas são uma forma de encontrar paz e aliviar a saudade dos entes queridos. Da mesma forma que, através delas os mesmos parentes ou amigos, podem lhes dar conselhos para lhes ajudar a resolverem certos problemas e viverem melhor.

A psicografia segundo a Doutrina Espírita é uma das variedades de mediunidade a que o médium (intermediário entre o mundo corporal e espiritual) é portador. Como o próprio espiritismo mesmo relata, há momentos em que o médium não é conhecedor da mensagem que chega através dele. Dentro da própria psicografia existem variedades como: Mecânica, Intuitiva, Semi-Mecânica e Inspiração.

Assim, podemos coloca-las da seguinte forma:


MEDIUNIDADE CARACTERÍSTICA
Psicografia Mecânica Quando o médium desconhece o teor da mensagem
que está escrevendo.
Psicografia Intuitiva O médium sabe o que está escrevendo
porém, transmite as idéias que recebe
dos espíritos.
Psicografia Semi-Mecânica O médium toma consciência
do que vai escrevendo de acordo como as palavras
lhe saem.
Psicografia por Inspiração É também denominada como uma variedade
da mediunidade intuitiva. E todo médium que,
recebe pelo pensamento idéias diferentes das
suas pode ser classificado nesta linha.


Dentro destas classificações há ainda várias sub-classificações. Para um maior conhecimento disto, aconselha-se ler o Livro dos Médiuns de Allan Kardec. Para termos um conhecimento mais aprofundado sobre a questão destes trabalhos nos centros espíritas, pedimos ao casal de médiuns Rosane e Hugo Carvalho que dessem um parecer baseados na experiência que ambos possuem nesta área de convívio com os desencarnados e médiuns das mais diversas procedências, a fim de ilustrarmos esta reportagem com a visão de praticantes deste intercâmbio dos dois mundos. Ambos são trabalhadores da Sociedade Espírita “Caminheiros do Bem“ de Novo Hamburgo/RS.

A seguir o depoimento dos médiuns:

“A pequena contribuição que poderemos dar a este tema tão importante nos seus efeitos para a Doutrina do Amor que abraçamos com certeza absoluta de estarmos angariando as luzes do entendimento das verdades eternas, é a de que em qualquer situação ligada a esta problemática, mais do que em outras,é fundamental que o médium seja um seguidor fiel dos ensinos de Jesus e de Kardec como Chico Xavier o foi.
Como muitos o sabem, estas ocorrências fizeram parte da programação espiritual em andamento, onde foi necessário chamar a atenção de muitos, para as verdades eternas que o Espiritismo comprova com muito bom senso e que foi obtida com êxito para desespero dos adversários da Luz Divina.

No histórico do médium, que psicografou a mensagem, é importantíssimo observar se constam comprovações de humildade, simplicidade e amor ao próximo vivenciadas e conhecidas, e que permitam a grande maioria das pessoas que o conhece, confirmar que possui realmente uma MORAL ELEVADA. Acreditamos que este embasamento do perfil do médium, já elimina antecipadamente, uma grande gama de falsidades que podem estar embutidas na mensagem.

Esta é a base, para aceitar iniciar a análise da situação e prosseguir buscando a comprovação dos fatos apresentados na mensagem recebida. Num segundo momento, a defesa apresentada pelo desencarnado, na escrita, é coerente com o bom senso, com a lógica dos fatos acontecidos?
Os pormenores são relevantes e no contexto em geral, são verossímeis? Evidentemente, que a confirmação da autenticidade no que diz respeito a letra do desencarnado, ou da sua assinatura, e de que o médium usufrui da mediunidade caracterizada por Kardec como MECÂNICA, constitui o item mais importante para técnicamente aceitar e dar um parecer jurídico sobre o caso.
A continuidade da preocupação se verdadeira ou não da mensagem psicografada recebida, seria o aspecto de "quem vai ganhar o que com isto". Se porventura, o médium que no caso não seria dos bons espíritos, de uma forma ou de outra, vai ser beneficiado, não tenhamos dúvidas, não será uma verdade provinda de benfeitores espirituais!

Todo e qualquer Espírita verdadeiro, neste caso, tem que fazer a sua parte, lutando pela verdade, anonimamente ou não, para que mais facilmente a Luz do Evangelho de Jesus ilumine mentes e corações, a fim de não se desviarem do verdadeiro caminho, tão admiravelmente difundido com exemplos vivos de renúncia, resignação e coragem, que Bezerra de Menezes, Chico Xavier, Divaldo Franco, Raul Teixeira e outros líderes espíritas, já nos
obsequiaram com tanto amor.

Finalizamos agradecidos, lembrando Kardec:
Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.“
O que será que nos diria o francês Allan Kardec, codificador da Doutrina Espírita sobre esses fatos? Os que atacam o espiritismo dizem que, tudo isto não passa de farsa e um abuso sobre as leis. Aos adeptos desta doutrina, a verdade sempre é revelada e nada é por acaso. Sendo Deus que rege todas as leis do universo, nada mais justo do que uma intervenção espiritual para impedir que o destino de alguém tome o rumo errado.

Com esta reportagem, pretendemos demonstrar que, mais do que uma religião e uma filosofia de vida, o espiritismo também é uma ciência. Suas bases são tão profundas quanto a origem da vida. Somente quem sente a dor da saudade pelo desencarne de alguém, sabe o quanto é consolador ter a certeza do seu bem estar.

Nunca nenhuma pesquisa ou tentativa de provar fraude sobre os trabalhos do médium Francisco Cândido Xavier obtiveram êxito. Pelo contrário, milhares foram os que não apenas se renderam as suas verdades, mas que, também passaram a defende-lo. Para se criticar algo é necessário estudo e bases para isso. A Doutrina Espírita prova-se por si só e não necessita brigar pelo seu espaço.

As psicografias ainda não são aceitas em todos os tribunais. Quem sabe, a continuidade destas manifestações não possam alterar o rumo que hoje segue o campo dos magistrados. Afinal, Jesus o grande mestre já dizia: Conhecereis a verdade e ela vos libertará.

Embora, ainda seja uma polêmica por todos estes fatores a utilização da psicografia como prova em um tribunal, sua força perante o público em geral é inegável. Quem sabe, estudos como estes ajudem a mudar esta realidade de hoje, de uma sociedade tão carente de espiritualidade e entregue a superficialidade dos fatos. Muitas mudanças já ocorreram e, como dizia Chico Xavier: Deixemos que o tempo e a voz de Deus sejam a nossa voz. Esperamos que, muitas pessoas possam encontrar as respostas para suas dúvidas e possam questionar muitos pontos com o auxílio deste estudo conhecendo um pouco mais sobre a Doutrina Espírita e sua valiosa contribuição a sociedade em geral.