sábado, 2 de abril de 2011

O Sexo na Visão Espírita

Fonte: Forum Espírita

Introdução:

O tema central da XXI CONRESPI – Confraternização Regional Espírita, realizada em São Carlos no período de 1 a 4 de março de 2003, foi “Sexualidade, uma abordagem espírita”, sendo que tivemos o grato ensejo de proferir a palestra e de participar de animado “pinga fogo” de encerramento, focando o mesmo assunto. Assim, aproveitando o estudo que realizamos para aquele evento e simultaneamente marcando nosso agradável retorno às páginas da querida RIE, faremos aqui um resumo da pesquisa, mas que, pela exigüidade do espaço e pela nossa conhecida limitação, não tem a mínima pretensão de esgotar um assunto polêmico e sobremaneira complexo como este. O trabalho aborda, primeiramente, as variadas manifestações sexuais, com base em estudos genéticos, médicos e psicológicos, entra na visão espírita da problemática sexual e chega a modestos e despretensiosos pontos conclusivos, seguindo-se a indicação completa da bibliografia citada no texto.

1. Manifestações sexuais:

Vários fatores têm influência mais ou menos decisiva na opção que o indivíduo adota para sua identificação e afirmação sexuais, como os de natureza fisiológica (sexo genético, gonadal e fenotípico), psíquica, familiar, social, médica, religiosa e jurídica. Mas antes disso já houve, no plano espiritual, a escolha feita pelo Espírito, que optou por uma encarnação em corpo masculino ou feminino, com certas variáveis que podem ocorrer por conta do seu passado. Daí falar-se em:

a) heterossexuais;
b) homossexuais;
c) intersexuais,
d) transexuais.

Vejamos alguns detalhes sobre cada uma dessas categorias para, em seguida focarmos o assunto sob o ângulo espírita.

1.1. Heterossexuais

— O prefixo grego hetero significa ‘diferente’, e, no campo da sexualidade, indica a pessoa que escolhe outra do sexo oposto não só para relações íntimas, como também para a plenitude do casamento. Assim, a definição de um indivíduo heterossexual começa a partir da fecundação do óvulo de sua mãe por um espermatozóide do seu pai. Na formação desse embrião, a primeira fase vai determinar se ele será do sexo masculino ou feminino (chamado sexo genético), dependendo da forma pela qual os cromossomos dos gametas dos genitores se unem. Como a mulher é homogamética (XX), cederá sempre um cromossomo X. O homem que, ao contrário, é heterogamético (XY) cederá um cromossomo X ou Y. Disso resultará um ovo XX (feminino) ou XY (masculino) sem contar a possibilidade da ocorrência de erros (como veremos no estudo da intersexualidade).

A fase seguinte, que acontece mais ou menos na oitava semana de gestação, marcará a diferença gonadal do sexo do indivíduo. Assim, presente um cromossomo Y, a gônada se diferencia na direção masculina e o tecido se volta à forma testicular típica; caso o ovo seja XX, o processo caminha para a formação ovariana, mas, tanto num caso como no outro, só estará completo na puberdade, quando terá início o funcionamento dos testículos e dos ovários e o surgimento dos caracteres sexuais secundários.

Desse modo, com a clara definição de suas características anatômicas, relativas ao sexo masculino ou feminino, a pessoa heterossexual terá essa opção reforçada pela educação ministrada pelos pais, professores e religiosos, entrará sem traumas na fase do namoro, noivado e casamento, constituindo sua família e gerando filhos.

1.2 Homossexuais

— O prefixo grego homo significa ‘mesmo’ ou ‘igual’ e não pode ser confundido com o correspondente latino, que se refere aos primatas (ex. homo erectus; homo sapiens). Assim, homossexuais são pessoas que preferem outras do mesmo sexo para relacionamento íntimo. Tal como o heterossexual, o homossexual não apresenta problemas na formação fetal, possuindo genitália interna e externa compatíveis com o seu sexo anatômico. Em geral, o homossexual procura esconder sua condição dos amigos e da família, cultivando hábitos relativos ao seu sexo, para evitar o preconceito.

Porém, também há homossexuais, normalmente masculinos mas sem excluir alguns femininos, que não apenas assumem publicamente sua posição, como adotam ainda um comportamento fetichista, usando roupas típicas do outro sexo, incluindo aqui o grupo dos travestis, valendo observar que estes não têm a mínima pretensão de esconder sua condição, tanto pela bizarrice da sua indumentária, quanto pela imitação grotesca das mulheres, não deixando qualquer dúvida no que se refere ao seu sexo verdadeiro.

1.3 Intersexuais

— Vimos que normalmente um embrião com cromossomos XY deverá resultar em homem e outro com XX em mulher. Porém, podem às vezes ocorrer erros cromossômicos na formação fetal, que causam hipertrofia na genitália interna e externa da criança, determinando o nascimento dos chamados hermafroditos. Vale observar que o ‘hermafrodito verdadeiro’ é uma figura mitológica, porque ele teria simultaneamente genitálias masculinas e femininas, internas e externas. Assim, seria capaz de fecundar-se a si próprio, gerar, dar à luz e amamentar uma criança, o que jamais ocorrerá, porque os órgãos masculinos e femininos estão situados em condição de absoluta incompatibilidade com a hipótese figurada.

Entretanto, esclarece Matilde Josefina Sutter, citada por Antônio Chaves, que “o número de indivíduos intersexuados não é tão reduzido quanto possa parecer à primeira vista. Somente na Unidade de Intersexo do Hospital Darcy Vargas em São Paulo, no curso de cinco anos se apresentaram 66 casos”. Esse verdadeiro drama vivido pelos hermafroditos é praticamente ignorado pela população. Decerto foi por essa razão que o autor Benedito Rui Barbosa, depois que tomou conhecimento do assunto, popularizou o hermafroditismo com a personagem Buba, interpretada pela atriz Maria Luiza Mendonça, criada por ele na telenovela Renascer.

1.4 Transexuais

— Transexuais são pessoas que têm a convicção de pertencer ao sexo oposto, cujas características querem possuir, ou até já obtiveram através de procedimento cirúrgico, de forma artificial e adaptativa. Note-se que o transexual é muito diferente do intersexual (pseudo-hermafrodito).

De fato, este pretende uma definição do seu sexo, por causa da atrofia da genitália. Assim, para que possa recuperar sua auto-estima, regularizar o registro e os documentos e até casar-se, necessita de uma cirurgia reparadora, que é aceita pelo Código de Ética Médica e pela lei. A mesma coisa já não acontece com o transexual, pois se ele é anatomicamente um homem, afirma que sua alma é feminina, e vice-versa. Desse modo, procura esconder sempre seus traços sexuais, usa roupas do seu ‘sexo psíquico’, não é e nem busca um homossexual para relacionamentos e sonha em ser operado para mudar de sexo.

Aliás, essa cirurgia é muito complexa, irreversível e não é legal no Brasil. Em síntese, se o transexual for masculino, o procedimento cirúrgico consiste na amputação do pênis e dos testículos, seguida pela construção de uma vagina artificial, revestida de pele e não de mucosa, o que implica na ausência de elasticidade e de lubrificação. Quanto ao transexual feminino, a cirurgia consistirá no fechamento da vagina, na amputação do clitóris, seguindo-se a implantação do pênis e dos testículos de silicone.

Toda essa artificialidade resultará em inúmeros problemas, a começar pela imperiosa necessidade de tratamento psicoterápico, além das dificuldades inerentes aos registros públicos, pois nem todo juiz está disposto a autorizar a retificação do nome e do sexo da pessoa operada. Isso tudo sem esquecer que, se o transexual ainda não tem parceiro antes da cirurgia, estará na obrigação moral e legal de revelar-lhe a verdade, sob pena de sérios transtornos no relacionamento futuro.

2. Visão espírita da sexualidade

O Dr. Geremias Rodrigues Vilella costumava alertar em suas proveitosas palestras, que além do chamado conteúdo personímico, relativo à presente vida de cada pessoa e o único reconhecido pela psicanálise tradicional, o inconsciente tem ainda os seguintes estratos: a) conteúdo pré-anímico do inconsciente – refere-se ao período em que o princípio inteligente estagiou nos reinos mineral, vegetal e nos animais da escala filogenética, e, b) conteúdo anímico do inconsciente – entrando no uso do seu livre-arbítrio, o Espírito humano, como individualidade, inicia sua longa escalada evolutiva, partindo dos seres primitivos, passando por incontáveis experiências como homem e como mulher, até chegar à personalidade atual.

Pois bem, antes de reencarnar, ainda na erraticidade o Espírito, com a orientação dos instrutores espirituais, programa a futura existência carnal, tendo como base o seu passado, conforme vimos acima. No que se refere ao sexo, a ele não faz diferença eleger o corpo de um homem ou de uma mulher, pois o que vai servir-lhe de guia nessa escolha são as provas pelas quais haverá de passar, uma vez que os Espíritos não têm sexo, como o entendemos no mundo corporal, porquanto os sexos dependem da organização; na verdade, reina entre eles amor e simpatia, baseados na concordância dos sentimentos. Acrescenta ainda Allan Kardec que “Os Espíritos encarnam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo. Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem encarnasse só saberia o que sabem os homens.”

Durante a fecundação e a gestação, o perispírito dará a conformação física a um feto, masculino ou feminino, em perfeita consonância com os ensinos da genética já vistos. Porém, tudo sob o comando do Espírito reencarnante, que traz a predominância da polaridade do sexo masculino ou feminino bem definido (heterossexualidade); ou os desvios que podem conduzi-lo, dependendo do seu livre-arbítrio, à busca de parceiros do mesmo sexo (homossexualismo); ou a interferência de fatores que irão provocar a atrofia sexual característica dos intersexuados (hermafroditismo), ou, finalmente, a angústia de ser um Espírito, com marcante polaridade masculina, ocupando um corpo feminino, ou vice-versa (transexualismo). Em uma frase, a posição de hetero, homo, inter ou transexual de uma pessoa, além de fatores genéticos, familiares e sociais, depende sobretudo da sua condição de Espírito imortal, através do seu passado milenar, no qual vivenciou experiências sexuais variadas.

Resumindo tudo isso, o Dr. Hermínio C. Miranda, no livro que concluiu para seu amigo, o saudoso confrade Dr. Deolindo Amorim, assevera, de maneira insofismável, que a “visão espírita da problemática sexual, como um todo, e da homossexualidade em particular, é, portanto, infinitamente mais abrangente, responsável e inteligente do que a visão unilateral que se tem a partir de uma postura meramente organicista, biológica, material. Somos espíritos e estamos num corpo físico. O Espírito não tem sexo, como entendemos, e sim uma poderosa energia criadora suscetível, como toda força natural, ao uso e ao abuso. A cada desvio num sentido há um infalível repuxo noutro. O processo evolutivo lembra o movimento pendular. Quanto mais avança num sentido, mais terá que retroceder no oposto. Quanto mais violenta a ação de ida, mais ampla a reação de volta, até que, eventualmente, com a gradativa redução da periodicidade, a oscilação se extingue e o movimento se aquieta no repouso. É o equilíbrio, é a paz. Não mais será necessário consumir energia para movimentar o mecanismo grosseiro e por isso sobrará energia para as conquistas transcendentais do espírito imortal.”

Conclusão.

O casamento, ou a união permanente entre um homem e uma mulher, é “um progresso na marcha da Humanidade” e portanto há de predominar sobre outros tipos de escolha sexual. Mesmo os celibatários, que escolhem permanecer solteiros apesar de aptos para o casamento, quando o fazem por egoísmo desagradam a Deus e enganam o mundo; mas têm seus méritos quando renunciam à família para se dedicarem, de modo mais completo, ao serviço da Humanidade (O livro dos Espíritos, questões 695, 698 e 699).

Desse modo, ao longo dos tempos as pessoas criaram o costume do namoro e do noivado, antecedendo ao casamento, para que possam conhecer o caráter e a personalidade dos seus futuros cônjuges, e assim acontece ainda entre pessoas estruturadas nessa tradição saudável e de grande utilidade na formação da família.

Entretanto, com a emancipação da mulher, o uso indiscriminado de anticoncepcionais e a liberação dos costumes, têm surgido algumas práticas que são, no mínimo, discutíveis. Uma delas é o “ficar”, palavra que designa o encontro e a permanência de jovens de sexos opostos, que muitas vezes sequer se conhecem, e durante esse “ficar” trocam todo tipo de carícias, podendo variar de um simples beijo até relações sexuais.

Outra novidade é a intensificação do sexo casual, sem nenhum compromisso anterior ou posterior ao ato sexual. Isto era comum entre os homens e agora conta com a adesão de mulheres de todas as idades, motivadas por telenovelas, filmes, livros e revistas pregando a irrestrita igualdade entre os sexos, mas com sentido dúbio e falacioso.

Acrescente-se a isso os altos índices de infidelidade conjugal, masculina e feminina; a insistência na legalização da união de homossexuais; o crescente número de operações para mudança de sexo e a proliferação dos travestis, e não será de assustar que a AIDS e outras moléstias sexualmente transmissíveis estejam dizimando a população, principalmente entre os jovens. Ademais, essa desagregação da família causa problemas de múltipla natureza, desde o aumento da infância abandonada, até o recrudescimento da criminalidade, especialmente do tráfico de drogas, armas e mulheres, dificultando as coisas para as pessoas de bem.

Por isso, é imperioso difundir entre as massas que o casamento, a constituição da família e a fidelidade conjugal ainda são — e serão sempre — as melhores armas contra todos esses males da atualidade. Bem-humorado como era, o prof. Henrique Rodrigues costumava dizer que se “o amor que um torcedor sente por seu clube ou escola de samba, existisse entre um homem e uma mulher, não haveria divórcio. Seu clube favorito pode estar na lanterna, apanhar de todos, servir de alvo para zombarias. O torcedor desse clube sofre calado, humilhado, mas não abandona seu amor por ele. É só perguntar a um corintiano, se seu clube ficou fora do campeonato, se ele vai torcer pelo Palmeiras que está classificado. E a um flamenguista no Rio, que também ficou de fora, se vai torcer por outro clube. Nunca!”

Eliseu Mota Júnior.