sábado, 16 de abril de 2011

Vigilância

Léon Denis afirma, na Introdução de sua notável obra “No Invisível”, que a regra por excelência nas relações entre o plano físico e o espiritual é a lei das afinidades e atrações.

Assim, quem procura as culminâncias e os altos objetivos da alma, cedo ou tarde os atinge; quem busca as sombras e baixios, com eles se encontra e se rebaixa.

O bom êxito na comunhão espiritual superior não o obtém o mais sábio, ou o mais inteligente, mas sim o verdadeiramente digno, paciente e moralizado.

Essa observação lógica e intuitiva deveria estar presente na consciência de todos os adeptos da Doutrina Espírita, como forma de alertamento permanente contra as influenciações inferiores que se insinuam nos pensamentos e ações de muitos espíritas, visando a perturbar a harmonia no seio do Movimento.

A dignidade da causa do Consolador, elevando-se acima das conveniências de ordem pessoal e das vaidades humanas incontroláveis, impõe aos espiritistas sinceros redobrada vigilância e reação contra os deturpadores, os críticos demolidores, os que só admirem um Espiritismo à sua feição, os que fazem da Doutrina, fraterna e cristã, campo de agitação e de desentendimento entre seus seguidores.

Onde estiver, cada consciência carrega consigo o fruto de suas inclinações e realizações. Dentro das fileiras espíritas existem os inadaptados, por não terem percebido ainda a verdadeira índole da Nova Revelação.

A vigilância e a reação a que nos referimos nada encerram de sentimentos antifraternos ou de intolerância contra quaisquer criaturas que porventura divirjam das idéias e convicções cristãs e espíritas. São formas naturais de auto-defesa, visando tão-somente, à maneira do dique solidamente construído, a deter as ondas, transformadas em modismos, renovados de tempos em tempos, de ataques aos valores incontestáveis da Doutrina dos Espíritos, no que tem ela de mais sublime e necessário à evolução humana: sua feição religiosa, moralizadora, libertadora do ser, fundamentada na individualidade incomparável do Cristo de Deus, na sua doutrina e na sua mensagem.

O que temos presenciado, com sincero pesar pelos inconseqüentes demolidores, é a preocupação indisfarçável, continuada, de retomada de velhas tentativas de diminuição do Cristo e de todas as figuras que fizeram parte de sua excepcional missão junto à Humanidade.

À sombra da doutrina cristã e humanitária, ressaltada por Kardec, procuram atingir todos aqueles que servem como instrumento junto aos homens para veicular a Doutrina do Amor e da Esperança, da Fé e da Concórdia. Nesse afã de demolir valores, não se detêm diante dos Guias Espirituais que se distinguem por sua sabedoria e dedicação à obra redentora e se apresentam ao Movimento Espírita através de elucidações educativas inatacáveis, verdadeiros discípulos do Cristo e divulgadores de seu Evangelho. Os médiuns comprovadamente missionários são ridicularizados, sem a menor sensibilidade e respeito. As instituições dignificadas no serviço e devotamento à causa espírita, a começar pela Federação Espírita Brasileira, as Federações Estaduais, os Centros Espíritas, tudo, enfim, que se constitui em valores e instrumentos de trabalho construtivo não são poupados à critica ácida, ao destempero, à intemperança.

Todo esse quadro deixa à mostra, iniludivelmente, um plano demolidor dos valores do bem, uma síndrome de ascendentes espirituais nos aborrecidos da Luz, contrariados nos seus objetivos pelas realizações positivas do Espiritismo no Brasil, a terra escolhida pelo Cristo para o retorno de seu Evangelho.

Esses ascendentes espirituais, imperando há logos séculos no mundo, opositores do Cristo, não se conformam com a projeção da Nova Luz. Querem a todo custo detê-la, se possível destruí-la, dispersar seus obreiros, levar o desânimo aos trabalhadores de boa vontade.

O que vemos e sentimos no próprio seio do Movimento Renovador, desde os tempos do Codificador, passando pelas crises dos Movimentos de diversas nações onde o Espiritismo iniciara sua obra, pelas lutas dos primórdios do Movimento no Brasil, pelas dissidências constantes e pelos ataques descobertos e francos da atualidade às construções positivas – conseguidas com tenacidade e sacrifício pelos idealistas espíritas de muitas décadas -, não deixa margem a dúvidas aos que estão atentos: os aborrecidos têm aqui, dento do Movimento Espírita, suas colunas, suas “pontas de lança”, preparadas intelectual e materialmente para levarem às hostes espíritas a dissidência, a desordem mental e o desânimo.

A vigilância requer de todos os que adquiriram a responsabilidade do conhecimento espírita sem vínculos com as sombras, dos idealistas que identificaram o Consolador na Nova Revelação, que evitem o engano de agasalhar os que apregoam a concórdia mas agem prestigiando a rebelião, o dissídio e a divisão; os que falam de simpatia e fraternidade e acionam a injúria; os que usam seus instrumentos para destruir e não para construir o bem; os que procuram incutir o desânimo nos de boa vontade; os que exploram a inexperiência e o despreparo daqueles que ainda não assimilarem suficientemente a essência da generosa Doutrina.

Os fomentadores do divisionismo aproveitam-se de toda e qualquer eventual imperfeição dos grupos, dos indivíduos e das instituições para melhor atacarem a unidade da Doutrina e se instalarem como salvadores e orientadores. Nos grupos do Movimento Espírita são os que acreditam mais na astúcia e na destreza intelectual que na humildade e na honestidade de propósitos e na busca do bem comum. São os críticos impiedosos, falando de indulgência, os que fazem tábula rasa da bondade, aperfeiçoando-se na técnica de ferir.

Muitos deles têm grande atração pela fenomenologia espírita, outros inclinam-se à ciência, ou cultivam o aspecto filosófico do Espiritismo, mas, de forma geral, não mostram simpatia pelo aspecto religioso da Doutrina, nem pelos Evangelhos, porque o esforço para a renovação íntima exige maior aplicação, perseverança e renúncia, independentemente do saber, da agilidade mental e da inteligência, sempre muito preciosos quando a serviço do aperfeiçoamento moral.

Paulo, escrevendo a Timóteo, exortou:

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina: persevera nestas coisas, porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo, quanto aos que te ouvem”.

São enormes as dificuldades a serem superadas no mundo em que vivemos. Dentro do Movimento Espírita elas se acentuam, diante de um ideal elevado a ser atingido, no terreno individual e coletivo. Há necessidade de constante esforço para aprender e viver os princípios da Doutrina.

No desdobramento de continuado esforço a que se entregam as almas enobrecidas no ideal espírita será imprescindível não descurar do cuidado consigo mesmo, vigiando o campo íntimo, resguardando a autodisciplina e os valores do coração. Com isso, cada qual ampliará a compreensão de si mesmo, respeitando todos os círculos evolutivos à sua volta, dilatando a esperança e o otimismo construtivo e renovador.

A vigilância interior não exclui o cuidado com o que procede do exterior. No contexto da Doutrina estão eles expressos, mas é preciso discernimento, bom senso, humildade, estudo e trabalho, para não se deixar conduzir pelo brilho dos “falsos profetas”, que costumam produzir prodígios interpretativos, urdidos com sagacidade capaz de ludibriar os desatentos. Em todo caso, suas idéias e obras, escritos e palavras, embora possam confundir, sempre se traem, ora pelo prepotente personalismo, ora pelo orgulho e vaidade, mal disfarçados. A medida para o exame seguro devem ser sempre os ensinos evangélicos, à luz da Doutrina dos Espíritos. Aí tem o estudioso espírita, ao seu alcance, a mais justa forma de aferição.

Dentro de nossos arraiais não teremos justificativas para deixar medrar o joio em prejuízo do trigo, como não podemos compactuar com o divisionismo, oculto em objetivos não confessados.

Teremos de resistir, sem ódio e rancores, aos que semeiam a discórdia, para implantação do “reino dividido” nas fileiras do Movimento, sob os mais diferentes pretextos. Se bem examinados, todos eles se resumem, no fundo, em oposição ao Evangelho.

As armas para a resistência, nessa pugna permanente, serão forjadas no aprendizado e na vivência da Doutrina, no uso da razão esclarecida e no cultivo dos sentimentos cristãos, associados de maneira equilibrada. Obtido o equilíbrio, não há que temer as arremetidas desagregadoras dos “revisores” do Espiritismo, eis que se tornam nítidos os valores verdadeiros, cuja fonte é invariável, não se deixando tisnar ao sabor dos interesses personalistas.

A dignidade da causa comum dos espíritas sinceros e esclarecidos impõe o dever de vigilância, serena mas eficaz, contra toda ordem de deturpação, de revisão suspeita, de negação, que se manifestam aqui e ali, já agora sem rebuços, não como inimigos declarados do Espiritismo, mas como seus adeptos.

É uma nova onda, novo processo, sutil e perigoso, na longa sucessão de meios de combate à Doutrina, que sempre teve seus opositores invisíveis, por trás dos combatentes ostensivos.

Se o mundo oculto inferior oferece as naturais dificuldades de identificação e avaliação aos que se encontram no campo físico, o mesmo não ocorre com seus agentes. Suas idéias os identificam. Ao combater concepções errôneas, mostrando as inconseqüências e inconformações com os ensinos espíritas e cristãos, automaticamente são atingidos os agentes ostensivos e a sustentação invisível.

A verdade não pode coexistir, nos domínios da Doutrina generosa e libertadora, com o erro e a insensatez. Poderá, sim, ser solapada e vilipendiada pelos poderes ocultos e pelos desvios interpretativos, mas somente enquanto os que são visados não despertam e não descobrem os valores autênticos, as verdadeiras consolações proporcionadas pela Nova Revelação, na plenitude de suas claridades.

Para discernir a verdade será mais apto o Espírito liberto de preconceitos, humilde de coração e desperto para o amor e menos capaz o portador de prevenções e dominado pelo orgulho, pressuposta semelhante capacidade intelectual.

Abraçando a Doutrina Espírita, o adepto aceita o compromisso de amá-la e respeitá-la, na sua unidade e integridade. Esse compromisso compreende o dever de estudá-la, aprofundando-a na medida do próprio discernimento. O espírita sincero está investido, assim, pelo conhecimento adquirido, na função de colaborador e participante de obra transcendente de esclarecimento e progresso sem limitações, abrindo novas vias para si e seus semelhantes, atraindo-os para o belo e o verdadeiro.

Daí seu dever de vigilância contra as mesclas e insinuações inferiores de encarnados e desencarnados. Cumpre-lhe atentar sempre para as fontes puras do Evangelho e da Codificação. Nas dúvidas porventura ocorrentes, existe vasta literatura consagrada por sua origem e pelo tempo, tratando dos desdobramentos doutrinários nos seus pormenores, análises e detalhamentos.

A Espiritualidade facilita, dessa forma, o esforço do adepto, orientando-o para que não seja induzido a erros e desvios, propostos, às vezes, sob formas sutis por inteligências a serviço dos opositores do Espiritismo e do Evangelho.

O Movimento Espírita no Brasil está repleto de lições muito claras a respeito dos rumos a seguir. Em horas cruciais, a Espiritualidade Maior jamais abandonou os trabalhadores sinceros, os que souberam manter os compromissos assumidos e se opuseram aos desvios de várias procedências, incompreensões, instabilidades políticas, penúria econômica, agitações sociais, no decorrer de mais de um século, não conseguiram desviar e comprometer a admirável firmeza doutrinária de um Bezerra de Menezes, de um Guillon Ribeiro, de um Wantuil de Freitas ou de um Francisco Cândido Xavier, para só citar uns poucos. Foram e são exemplos de tenacidade e resistência contra todas as espécies de pressões e tentações na condução e sustentação de uma obra coletiva que levou o Espiritismo, no Brasil, ao estágio atual, expandindo-se sem comprometimentos indesejáveis.

Não queremos afirmar que tudo está perfeito, acabado, sem problemas no Movimento. A obra a realizar é imensa e permanente a possibilidade de aperfeiçoar-se, mas as diretrizes traçadas estão no rumo certo. Portanto, não há por que tergiversar, desviar, desanimar.

Como diz Emmanuel:

“Provocações e problemas, habitualmente, são testes de resistência, necessários à evolução e aprimoramento da própria vida”.


O Mensageiro - Revista Espírita-Cristã do Terceiro Milênio

Autor:
Juvanir Borges de Souza

Fonte:
Livro: Tempo de Transição