segunda-feira, 18 de abril de 2011

A vida de Paulo de Tarso

Escrito por Maria Aparecida Romano


Na alvorada do cristianismo, seu paladino maior, Paulo, o apóstolo por excelência, abriu um caminho por entre um mundo de obstáculos, influindo decisivamente na evolução da doutrina cristã.

Constituiu-se numa bandeira para todos aqueles que são conscientes que a “eleição” confiada pelo Plano Maior envolve responsabilidades, sacrifícios e perseverança.

Paulo nasceu na primeira década de nossa era, em Tarso, na Cilícia, distrito da Ásia Menor entre a Panfília e a Síria (hoje Turquia), descendente de uma abastada família judaica aferrada a um estreito formalismo religioso, pois eram judeus da Diáspora (viviam longe da pátria, espalhados pelo imenso Império Romano). Cidadão de Roma por nascimento e filho de Israel por direito, recebeu o nome de Saulo, foi circuncisado no oitavo dia e aprendeu as primeiras letras aos seis anos de idade.

Destinado à carreira de rabino, freqüentou a escola anexa à sinagoga, onde aprendeu a síntese da Lei Mosaica. Segundo os dispositivos, todo rabino deveria conhecer um trabalho mecânico para prover seu sustento em caso de necessidade e, assim, ensaiou na oficina do pai os primeiros movimentos no manejo de um primitivo tear. Esse humilde ofício viria a ser uma de suas glórias. Ausentando-se de Tarso em sua juventude, foi residir em Jerusalém com sua irmã Dalila, passando a freqüentar a Escola do Templo para aperfeiçoar seus conhecimentos.

Sob a orientação do sábio Gamaliel, que exercia considerável influência no tribunal judaico, o jovem tarsense, de temperamento impulsivo, convicto de ser filho de um grande povo, conheceria a fundo as escrituras sacras em duas línguas: no original hebraico (Tora) e na versão grega (Septuaginta). O ambicioso Saulo, fiel às tradições de sua gente, preparava-se para uma brilhante carreira como Doutor da Lei, adotando a posição ideológica dos fariseus, pois já se definia uma posição no Sinédrio.



O início da perseguição

Aos 30 anos de idade, o novo rabino retornou a Tarso cheio de planos, entre eles os matrimoniais com a jovem Abigail. Entrementes, penetrava na Cilícia o eco de estranhos acontecimentos ocorridos na Palestina, relativos a “um carpinteiro galileu, obscuro e sem cultura” que se tornara conhecido operando “prodígios”, pregando uma nova seita e continuava venerado após a sua crucificação por instâncias do Sinédrio. Foi sugerido a Saulo, embora estivesse ausente no período da vida pública de Jesus, que usasse seu prestígio na liderança de uma campanha contra a nova seita que se formara.

Durante esse período, na tentativa de unificar a doutrina, os discípulos do Mestre se reuniam na primitiva comunidade cristã que era chamada Casa do Caminho, por ficar na saída de Jerusalém, a caminho de Jope, e significar “a casa dos adeptos do caminho do Senhor”, tendo Simão Pedro como célula central.

Lá vivia Jeziel, um jovem israelita procedente de Corinto. Batizado com o nome de Estevão, desenvolveu faculdades curadoras. Dotado de brilhante oratória, pregava a mensagem da Boa Nova na tosca Igreja do Caminho. Na escolha feita pelos apóstolos dos sete primeiros diáconos (servidores), Estevão estava entre eles. Quando Saulo decidiu ouvi-lo pessoalmente, sentiu nas palavras do ardoroso pregador a terrível ameaça que a nova doutrina oferecia. Apresentou uma denúncia formal sob a alegação de que um obscuro Nazareno não ofuscaria as leis de Moisés. Declarado pelo Sinédrio como inimigo das tradições hebraicas, Estevão foi preso e condenado à morte por lapidação, mantendo-se sereno e convicto de suas crenças até o derradeiro instante.

A condenação de Estevão foi o primeiro grande triunfo público de Saulo, que assistiu o ato ao lado de sua noiva Abigail, que reconheceu no jovem mártir o irmão Jeziel desaparecido há tempos. Sensível, não resistiu à forte emoção e adoeceu, vindo posteriormente a desencarnar. Superado o abatimento, o rabino convocou uma reunião no Sinédrio e solicitou poderes totais para coibir a propagação da nova seita. Munido de documentos, partiu em caravana para a Síria. Como Doutor da Lei, tinha plenos poderes de perseguir e efetuar prisões aos seguidores do Nazareno.



O encontro com Jesus

Durante o percurso, uma espessa nuvem de poeira cobria a estrada. Já se avistava a cidade de Damasco quando Saulo, envolvido por um brilho estranho, jaz em terra, mergulhando na mais completa escuridão em pleno meio-dia. Estava cego. Seguiu-se outra luz que banhou seus olhos e nela surgiu um homem vestindo túnica com pontos luminosos e cabelos a nazareno, que lhe falou com voz amorosa: “Saulo, por que me persegues”?

O Doutor da Lei não compreendia o que se passava. Como somente ele via aquela majestosa figura, perguntou: “Quem sois vós, Senhor”? Então o homem disse: “Eu sou Jesus, a quem persegues”.

A aparição do Nazareno crucificado foi a grande revelação da vida de Saulo. Naquele momento, o orgulhoso perseguidor encerrou sua tarefa. Em seu lugar despontou um modesto servidor de Cristo, que ficaria conhecido através dos séculos como o “Convertido de Damasco”.

Em prantos, Saulo perguntou: “Senhor, que queres que eu faça”? “Entre na cidade e saberás o que fazer”, foi a resposta.

Após o desaparecimento da “visão”, conduzido à cidade, foi para a hospedaria da Rua Direita, permanecendo em rigorosa disciplina espiritual. Recebeu a visita de Ananias e, à medida que o líder local do movimento pró-nazareno proferia uma prece para que fosse restituída a visão, escamas foram se desprendendo dos seus olhos. Paulo voltou a enxergar.

Ananias lhe ministrou os primeiros ensinamentos da doutrina e, às margens do Rio Barada, recebeu o batismo. Em seguida, deu início à tarefa missionária, prontificando-se a propagar a Boa Nova. Considerado enfermo por alguns e traidor por outros, conheceu na sinagoga de Damasco as primeiras humilhações de uma série que o acompanhariam no decorrer de sua existência.

Partiu em direção de Palmira, cidade situada num oásis em pleno deserto, onde buscou orientação com o velho mestre Gamaliel, que o aconselhou a consolidar seus novos propósitos enquanto trabalhasse no tear. Exilou-se por três anos no deserto de Dan, trabalhando como tecelão à sombra das tamareiras enquanto intensificava as pregações.

No seu retorno a Damasco, foi informado que havia sido considerado desertor pelo Sinédrio e que estavam à sua procura. Às escondidas, atravessou a Galiléia, visitando os recantos por onde o Mestre andara, pregara e sofrera. Conheceu Madalena e seguiu para Jerusalém. Lá, após o martírio de Estevão e as contínuas perseguições, os discípulos do Nazareno preferiam pregar em outros locais.

Após ser recebido com desconfiança, Saulo conheceu Simão Pedro, Tiago e João através de Barnabé, um levita convertido que ouvira falar da coragem do tarsense. Aconselhado a sair da cidade, cenário de penosas experiências, retornou a Tarso, sendo recebido por seu pai, o radicalista Isaac, com dureza inesperada. Num impulso, ofereceu uma sacola de dinheiro para Saulo, que fez uso adquirindo um pequeno tear, decidido a ganhar a vida como tecelão. Durante três anos, passou a viver de salário, causando piedade, mas pôde exemplificar a humildade de forma comovente.

Até que um dia surgiu o fiel Barnabé a lhe convidar para uma excursão de cunho missionário pela Ásia. Seria a primeira de uma série de quatro grandes viagens que faria na tentativa de evangelizar o mundo greco-romano. Inaugurou seu apostolado com as melhores disposições, mas o trabalho que o esperava era indigente e sobre-humano.



A primeira viagem de evangelização

Antióquia, sede do legado romano na Lívia, tornou-se o ponto de partida das iniciativas missionárias. Ficou um ano no primeiro núcleo cristão da humanidade, onde juntou-se a João Marcos (sobrinho de Barnabé) e teve o primeiro encontro com Lucas, um jovem médico. Por sua sugestão, os discípulos de Jesus passaram a ser chamados de cristãos. Em Chipre, terra natal de Barnabé, após a conversão do governador Sérgio Paulo, fundaram o núcleo de Pafos. A partir de então, o nome “hebraico” Saulo daria lugar ao “latino” Paulo. Fundou ainda os núcleos de Perje e Icônio, ocasião em que o apóstolo decidiu pregar a Boa Nova para os gentios.

No núcleo fundado em Listra, Paulo é aclamado após a cura de um aleijado, enfurecendo os judeus. Apedrejado, sobrevive ao ser socorrido por Timóteo, jovem de 15 anos que se tornaria um dos discípulos mais fiéis. Deixando a cidade às escondidas, convaleceu no período de um ano. Com a ajuda de Timóteo, funda o núcleo de Derbe e Salamina, voltando para Jerusalém satisfeito com os resultados. Por ele foram fundadas as primeiras sete comunidades cristãs e a porta da fé foi aberta para os gentios. Participou do 1º Concílio Apostólico, onde foram discutidos pontos controversos entre as leis de Moisés e o evangelho de Cristo.



A segunda viagem: chegada à Grécia

Acompanhado de Timóteo, iniciou a segunda viagem levando um estímulo e as prescrições de Jerusalém aos núcleos já organizados. Reencontrou Lucas e juntos percorreram Neápolis, Felipes, Tessalônica e Beréia. Passados vinte anos de sua conversão, realiza um sonho: chega a Atenas, a metrópole intelectual da época. O primeiro encontro do cristianismo com a filosofia pagã da Grécia se deu em praça pública. O recém-chegado, pregando uma filosofia acerca de “novas divindades”, despertou a curiosidade dos intelectuais. Convidado para fazer uma conferência no Aerópago (Supremo Tribunal), provou o insucesso. Os orgulhosos filósofos gregos não quiseram saber nada sobre Cristo.

No aparente fracasso de suas pregações em terras gregas, conseguiu algumas conversões e a fundação do núcleo de Corinto. Porém, a doutrina se expandia e ficava difícil manter contato pessoal. Atendendo a apelos, o apóstolo inaugurou um novo gênero literário: as epístolas, instruções religiosas por meio de cartas. A primeira epístola foi dirigida à cristandade de Tessalônica. Provavelmente, este tenha sido seu mais antigo manuscrito e também do Novo Testamento, que dispõe ao todo de 21 epístolas, sendo 14 de autoria de Paulo de Tarso.



A primeira prisão

Uma nova visita aos núcleos já organizados foi a finalidade da terceira viagem. Acolhido de forma comovente, viu seus esforços frutificados. As pequenas comunidades prosperavam e o evangelho era ouvido em todas as partes. Numa rápida passagem por Cesaréia, um vidente de nome Ágabo profetizou a prisão de Paulo, que se manteve disposto a morrer em nome de Cristo.

No retorno a Jerusalém, descoberto pelos judeus que o haviam perseguido na Ásia, foi preso e levado para Cesaréia, que servia de base para as operações militares de Roma. Como não havia fundamentos legais nas acusações, permaneceu dois anos esquecido na fortaleza local.

Favorecido pela condição de cidadão romano, movia-se com liberdade, auxiliando Lucas a redigir a biografia de Jesus com base nos fatos relatados por Maria. O evangelis-ta acrescentou os atos dos apóstolos, associando os nomes a obstáculos superados para servirem de estímulo aos seguidores.

Recebeu a visita do sobrinho Estefânio, filho de Dalila, que o advertiu de uma possível conspiração dos seus inimigos para matá-lo. Decorridos dois anos, convencidos que o processo não era da competência da alçada civil, mas do tribunal religioso, decidiram pela volta do apóstolo à capital do império.

A viagem para Roma foi cheia de surpresas. A embarcação levava centenas de presos aguardando julgamento e Paulo não perdia a oportunidade de pregar a Boa Nova e lhes mostrar o caminho da regeneração. Atingida por uma tempestade sub-tropical, a frágil embarcação ficou à deriva por 14 dias, encalhando na Ilha de Malta, ao sul da Itália, ali permanecendo três meses.

Em Roma, decretada sua prisão domiciliar, Paulo permaneceu dois anos num aposento que alugara, sob vigília constante de um legionário romano. Recebia os discípulos, visitava as comunidades e intensificava as pregações. Não encontrando saída para o processo, de caráter religioso, o Tribunal do Império absolveu o réu. Podendo pregar livremente, partiu para a quarta viagem, levando na bagagem um programa desenvolvido de evangelização.

No mês de julho do ano 64, enquanto visitava as comunidades cristãs do Oriente, em Roma, nas proximidades do Grande Circo, espalhava-se a dor. Um violento incêndio, que durou sete dias, atingiu a região entre o Célio e o Palatino, consumindo vidas e propriedades. Nero, imperador e possível idealizador, encontrava-se na confortável Vila de Antium, ao sul de Óstia, e prometeu auxílio à população revoltada.

Atribuído o incêndio à “Seita dos Nazarenos”, seus seguidores foram perseguidos. Enquanto alguns foram lançados às feras no Coliseu, outros foram transformados em tochas ardentes atados aos postes. Boa parte dos amigos de Paulo foram martirizados.



A morte de Paulo

Enquanto as imagens do pavoroso sinistro ainda permaneciam vivas na memória da população romana, Paulo retornou a Roma, intensificando as pregações de reconforto. Acusado de insuflador e cúmplice dos “cristãos incendiários”, recebeu voz de prisão numa das reuniões das catacumbas, voltando ao cárcere em condições bem mais difíceis, pois o processo pertencia à alçada do Tribunal de César. Lançado no subterrâneo do Cárcere Mamertino, no Fórum Romano, permaneceu em solidão quase absoluta, sentindo mais do que nunca a deserção de quase todos os seus amigos.

Consumido pelo sofrimento e privações, sentindo a proximidade do fim da árdua missão, redige sua derradeira carta, nomeando Timóteo seu testamenteiro. Seus bens materiais consistiam apenas numa velha capa e alguns manuscritos, mas seus tesouros espirituais eram incalculáveis. Num último apelo, Paulo exortou todos os cristãos a se manterem firmes na fé mesmo em condições adversas, a cumprirem seus deveres e colocarem amor em todos os seus atos.

Levado a julgamento, ouviu sua sentença de morte e, numa manhã da primavera do ano 67, foi conduzido à Óstia Tiberiana (Foz do Rio Tibre). Um golpe certeiro decapitou a cabeça do mais ardoroso entre os discípulos de Cristo. Mãos caridosas retiraram o corpo e o sepultaram no local onde hoje se eleva a grandiosa Basílica de São Paulo. Lá repousa até hoje o invólucro material do espírito considerado como o grande evangelizador dos povos.

Na sucessão dos séculos, mesmo diante das eminentes dificuldades que surgiram no caminho, à medida que seus seguidores foram conhecendo e contemplando a extensão da obra do apóstolo, aprenderam a admirá-lo. Sua obra reflete uma maravilhosa inteligência, uma personalidade marcante e um exuberante potencial de espiritualidade. Seu mandato apostólico teve início na “iluminação” de Damasco e, a partir daí, manteve-se genuíno. Tornou-se um incansável batalhador, empenhando-se numa luta sem tréguas para difundir uma nova filosofia que iluminou os cristãos de sua época e de todos os tempos.