sexta-feira, 7 de agosto de 2009

DIABÓLICO ELIXIR

Diz o abstêmio:
- Não sabe que beber é uma morte lenta?
Responde o beberrão:
- Tudo bem... não tenho pressa.
Ambos estão equivocados.
Todos morremos lentamente.
Programados biologicamente para uma existência aproximada de um século, sofremos lento, progressivo, inexorável desgaste celular que culminará com o colapso orgânico, transferindo-nos para o Além.
Por outro lado, o vício sobrecarrega e compromete o funcionamento de órgãos vitais, o que acelera o processo.
O alcoólatra, portanto, morre mais depressa.
Situando o corpo como uma máquina que nos é emprestada para a viagem terrestre, imaginemos nosso constrangimento ao sermos informados por mentores espirituais de que arrebentamos com ela, indiferentes à sua preservação...
- Meu filho, lamento dizer que você regressou extemporaneamente. Está incurso no suicídio indireto! *
- Não é possível: Há algum engano!... Adorava a existência humana!
- Adorava beber! Nunca se conscientizou de que estava prejudicando seu corpo, embora ele o avisasse, freqüentemente, sinalizando com males variados. Eram doridos e ignorados pedidos de socorro de um servo que você está afogando em álcool.
- E agora?
- É esperar pela reencarnação. Alguns decênios com um fígado sensível, um aparelho digestivo complicado e você esquecerá a bebida, como irrealizável paixão que se esvai com o tempo. Uma úlcera gástrica obstinada, talvez um câncer depois, o ajudarão a recompor o perispírito ferido pelo vício...
Não é fácil vencer o condicionamento.
Dentre os padecimentos que a morte reserva ao alcoólatra, um surpreendente:
Continua sequioso da “água que passarinho não bebe”, porquanto o álcool, além dos estragos no corpo, provoca um condicionamento no corpo espiritual que lhe impõe a mesma premência de beber.
Com satisfazer-se se lhe falta o corpo?
Um único meio, não menos espantoso, que ele logo dominará: ligar-se ao psiquismo de um viciado “vivo”, o que lhe permitirá experimentar as sensações da bebida.
Um transe mediúnico invertido.
Ao invés de o encarnado colher as impressões do Espírito, este colhe suas sensações ao fazer uso da bebida, satisfazendo-se.
Pessoas sensíveis a essa influência são facilmente dominadas, transformando-se em canecos humanos.
Bebem descontroladamente, agindo como instrumentos para a satisfação dos parceiros invisíveis.
- É um sem-vergonha! Devia curtir sua bebedeira na prisão dizem as pessoas, referindo-se ao bebum.
- É um obsidiado. Precisa de tratamento médico e assistência espiritual – ensina a Doutrina Espírita.
Nos bares, onde o consumo de alcoólicos é expressivo, o ambiente espiritual assustaria o médium vidente.
Turbas de Espíritos viciados a envolver os habitués, sustentando neles a compulsão alcoólica.
Reuniões sociais regadas a álcool são muito freqüentadas por penetras desencarnados, viciados do Além.
Aproveitam o alto consumo de bebidas nesses ambientes, porquanto o álcool é reconhecido como recurso desinibidor. Algumas doses são suficientes para superar a timidez, favorecendo a comunicação, sem o que muitos convidados sentem-se marginalizados.
O que nem todos sabem é que o álcool nada faz senão anestesiar centros de controle do comportamento. E como ali estão também as bases físicas da reflexão e do senso de avaliação, o beberrão passa a oscilar entre a expansividade e a agressividade, a comunicabilidade e o ridículo, a descontração e a inconveniência, algo como sugere velha lenda judaica:
Conta-se que quando Noé deixou a arca, após o dilúvio, plantou uma vinha. Veio o diabo, matou um leão, um macaco e um porco. Em seguida regou a plantinha tenra com o sangue desses animais.
A partir daí, os que fazem uso da bebida produzida com a fermentação da uva revelam três tipos de comportamento animal:
Violentos como o leão.
Inconvenientes como o macaco.
Pachorrentos como o porco.
E fazem pior, porquanto o irracional é contido pelo instinto, enquanto que o Homem não tem limites quando transita pela irracionalidade.
Não raro, sobrepondo-se aos viciados desencarnados, que buscam os “canecos humanos”, há obsessores cruéis que se aproveitam das brechas psíquicas abertas pelo álcool.
Acidentes, brigas, agressões, crimes, desentendimentos, desuniões, desequilíbrios surgem a partir da insidiosa ação de entidades das sombras que se infiltram na mente indefesa do alcoolizado, levando-o a um comportamento anti-social.
O problema fundamental do viciado é a incapacidade de ajustar-se às realidades existenciais.
Alimentando uma visão distorcida, empolga-se pela busca de sensações, perseguindo uma euforia artificial, um céu efêmero sempre sucedido por um inferno de desequilíbrios.
Impermeável aos conselhos e orientações de amigos e familiares, insiste no vício, perdendo as melhores oportunidades de edificação da jornada humana. Depois, situa-se em longos estágios de sofrimento depurador na Espiritualidade, qual o lavrador desavisado que colhe espinhos semeados em campo fértil.
Quantos males seriam evitados! Quantas dores não aconteceriam! Quantos problemas seriam resolvidos se o alcoolismo das conversas vazias de fim de expediente, de fúteis reuniões sociais, de preguiçosos fins de semana fosse substituído pela visita ao enfermo, pelo atendimento do necessitado, pelo estudo edificante, pela participação na atividade religiosa...
Os que assim fazem não precisam de drinques para experimentar alguma descontração ou fugaz euforia, porquanto há neles aquela vida abundante a que se referia Jesus. Aquela força divina que vibra em nossas veias quando nossa mente se povoa de ideais e nosso coração vibra ao ritmo abençoado de serviço no campo do Bem.
Richard Simonetti
* Ver, em “O Livro dos Espíritos”, a Q. 952, sobre suicídio moral. (N.R.)