terça-feira, 4 de agosto de 2009

A VIDA DE KARDEC

Foi neste clima de mudanças e de reconstrução de um novo mundo, onde vingava, por toda a parte o Romantismo, que nasce, a 03 de outubro de 1804, em plena era napoleônica, na cidade de Lyon, Hyppolyte Léon Denizart Rivail, que mais tarde adotaria o pseudônimo de Allan Kardec. Ele era filho de um juiz, Jean Baptiste Antoine Rivail, e sua mãe chamava-se Jeanne Duhamel. Nasceu na religião Católica mas foi educado no Protestantismo.
Conta-se que o pai o iniciou com todo cuidado nas primeiras letras e o incentivou à leitura dos clássicos. Denizard Rivail sempre se mostrou muito interessado em ciências e em línguas. Após completar os primeiros estudos em Lyon, Denizard partiu para a Suiça, para completar seus estudos secundários na escola do célebre professor Pestalozzi, na cidade de Yverdun. Bem cedo o jovem de Lyon chama a atenção do mestre que o coloca como seu auxiliar nos trabalhos acadêmicos que exercia, tendo algumas vezes substituido Pestalozzi na direção da escola.
Denizard Rivail bacharelara-se em Letras e Ciências. Falava fluentemente vários idiomas. Após ser dispensado do serviço militar, resolve fundar, em Paris, uma escola nos moldes da de Yverdun, que foi chamada de Liceu Polimático. Ele estava empenhado no aperfeiçoamento pedagógico da educação francesa,e, por isso, escreveu vários livros sobre o assunto, tendo sido premiado, em 1831, por seu trabalho, pela Academia Real de Arras. Por esta mesma época, casa-se com a professora Amélie Gabrielle Boudet.
Quando tudo parecia ir bem, o sócio de Rivail, que era seu tio, leva o Liceu à ruina, por dissipar, no jogo, vastas somas. Nada restava a Rivail que pedir a liquidação do Instituto a que se dedicara com tanto amor. Com o dinheiro resultante da partilha, Rivail sofre um outro revés da sorte. Após ter aplicado o dinheiro na casa comercial de um de seus amigos, este logo abre falência, por realizar maus negócios, e Denizard se vê na constrangedora situação de nada mais ter.
Para poder sobreviver, Rivail se lança frenéticamente a escrever livros didáticos e a trabalhar como contador de três firmas comerciais, o que lhe possibilitou, após o susto e o desespero iniciais, recuperar parte de seu antigo padrão de vida. Chegou a organizar, também, cursos de Física, Química, Astronomia e Anatomia Comparada que eram muito populares entre os jovens da época.
Quase que paralelamente a estes acontecimentos na vida de Denizard Rivail, ocorre nos Estados Unidos um conjunto de fenômenos que deram início ao nascimento do moderno Espiritismo (este termo, espiritismo, foi cunhado em 1857 por Rivail, para distinguir este movimento do de outras escolas espiritualistas.)Trata-se dos fenômenos ocorridos em Hydesville, estado de New York, em 1848, na casa da família Fox, que era metodista, e, portanto, longe de ter qualquer queda ou interesse por fatos que poderíamos hoje chamar de paranormais.
As fortes pancadas que começaram a ser ouvidas no quarto das irmãs Katherine e Margaretta e que se fizeram freqüentes por várias semanas, levaram a primeira, então com nove anos, a desafiar "o batedor" a reproduzir as pancadas que ela mesma daria. A prontidão das respostas acabaria por marcar o início desse tipo de comunicação entre vivos e mortos. (Enciclopédia Mirador-Britânica, pg.4171).
Por esta época, em Paris, estava em voga uma nova moda. Tratava-se das chamadas "mesas falantes" ou "mesas girantes", que consistia em se fazer perguntas ao redor de uma mesa ou outro móvel qualquer, que respondia através de pancadas às perguntas formuladas. Isto era visto apenas como uma sutil e inexplicável diversão de salão, quando não era encarada como uma brincadeira ou embuste espirituoso. Mas havia quem levasse a sério tais coisas, pois muitas vezes as mesinhas davam respostas corretas sem que ninguém conseguisse provar ou descobrir quem ou o que fazia as mesas responderem. Convém notar que esta "moda" das mesinhas que giravam, parecia ocorrer em todos os lugares e em vários países, o que dificilmente pode ser creditado ao acaso.
Em 1854, Denizard ouve falar pela primeira vez sobre tais "fenômenos", mas sua primeira atitude é de ceticismo: "eu crerei quando vir, e quando conseguirem provar-me que uma mesa dispõe de cérebro e nervos, e que pode se tornar sonâmbula; até que isso se dê. dêem-me a permissão de não enxergar nisso mais que um conto para provocar o sono".
Por insistência dos amigos, Rivail presencia algumas das manifestações físicas das mesinhas. Depois da estranheza e da descrença inicial, Rivail começa a cogitar seriamente na validade de tais fenômenos. Eis o que ele nos relata: "De repente encontrava-me no meio de um fato esdrúxulo, contrário, à primeira vista, às leis da natureza, ocorrendo em presença de pessoas honradas e dignas de fé. Mas a idéia de uma mesa falante ainda não cabia em minha mente". E ainda: "Pela primeira vez pude testemunhar o fenômeno das mesas que giravam e pulava em tais condições que dificilmente poderia acreditar serem frutos de embuste ou fraude(...) Minhas idéias longe estavam de terem sofrido uma modificação, mas em tudo aquilo que se sucedia devia ter uma explicação". (Henri Sausse, ed. Opus- 1982).
Foi em 1855 que Rivail testemunha pela primeira vez o fenômeno das mesas girantes. Passa então a observar os fatos; pesquisa-os cuidadosamente e, graças ao seu espírito de investigação, que sempre lhe fora peculiar, resiste a elaborar qualquer teoria preconcebida. Ele quer, a todo custo, descobrir as causas. " Sua razão repele as revelações, somete aceita observações objetivas e controláveis." "Vários amigos que acompanhavam há cinco anos o estudo dos fenômenos, colocam à sua disposição mais de cinquenta cadernos, contendo as comunicações feitas pelos Espíritos. Foi por esse estudo que ele se convenceu da existência do mundo invisível e dos espíritos". (Henri Sausse).
Ele utilizava o material dos cadernos, com as respostas dadas pelos espíritos, para refazer as mesmas perguntas para outros médiuns, de preferência desconhecidos dos primeiros. Com base nas novas respostas, Rivail comparava o conteúdo de ambas, e ficava perplexo com as similaridades freqüentes entre elas. Ele formulava as perguntas, e pedia a ajuda de amigos para fazê-las a outros médiuns, em outras localidades. Ele recebia as respostas e compilava-as organizadamente por tópicos e assuntos.O primeiro livro: "O Livro dos Espíritos"Com o estudo meticuloso das respostas dadas pelos espíritos, por meio de diversos médiuns e em diversas localidades de diversos países, Rivail teve suficiente material para compor o seu primeiro livro sobre o Espiritismo. Ele faz uma lúcida introdução sobre seu trabalho no prefácio da obra: "O Livro do dos Espíritos", lançado em Paris, em 18 de abril de 1857. Na capa da obra, está o nome do autor, ou melhor, o seu pseudônimo, Allan Kardec. Rivail preferiu por este nome em sua mais importante obra, para diferenciar sua temática das de suas obras anteriores, voltadas à educação e à pedagogia.
Este nome foi escolhido quando um espírito que se denominava Z, havia dito a Rivail que eles haviam sido amigos numa vida anterior. Eles haviam vivido entre os druidas, nas Gálias, e o nome de Rivail era, na ocasião, Allan Kardec."O Livro dos Espíritos" possui passagens e reflexões que vão muito além do nível de conhecimento ordinário de sua época de publicação, inclusive no que tange aos aspectos científicos da obra.No livro Obras Póstumas, também de Allan Kardec, mas publicado após o seu desencarne, relata: " Durante os primeiros anos de preocupação com os fenômenos espíritas, foram estes mais objeto de curiosidade que de meditações sérias. O Livro dos Espíritos fez com que fossem encarados por outra face: desprezaram-se as mesas falantes, que tinham sido o prelúdio e se ligou o fenômeno a um corpo de doutrina, que compreendia questões concernentes à humanidade." " Da aparição do livro data a verdadeira fundação do Espiritismo, que até então só possuia elementos esparsos, sem coordenação e cujo alcance não tinha sido compreendido por todos."
Em Janeiro de 1858, Allan Kardec publica o primeiro número da Revista Espírita, que serviu como poderosaauxiliar para os trabalhos ulteriores e para a divulgação da Doutrina Espírita na Europa e na América.
Em 1º de abril de 1858, Allan Kardec funda a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas que tinha por objetivo "o estudo de todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas e suas aplicações às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas" . O seu fim exclusivo era do estudo de tudo quanto pudesse contribuir para o progresso da nova ciência.Em outubro de 1861, ocorreu o chamado Auto de Fé, promovido pela Igreja Católica da cidade de Barcelona, na Espanha, onde foram queimadas em praça pública, cerca de trezentas publicações espíritas. Estas obras, encomendadas a Allan Kardec pelo bibliotecário e livreiro Maurício Lachâtre, foram enviadas de forma comum, nas condições alfandegárias normais, tendo as taxas de importação sido pagas pelo destinatário às autoridades espanholas; porém a entrega das encomendas não foi realizada. Elas foram confiscadas pelo Bispo de Barcelona, com a seguinte justificativa: " A Igreja Católica é universal e estes livros são contrários à fé católica, não podendo o governo permitir que eles passem a perverter a moral e religião de outros países".Graças, no entanto a esta demonstração de brutalidade da religião de Roma, o espiritismo acabou tendo uma grande repercussão em toda a Espanha, granjeando inúmeros adeptos. Allan Kardec continua sua trajetória, escrevendo todos os livros da codificação espírita, publicando em 1861 o livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo em 1864, o Céu e o Inferno ou a Justiça de Deus segundo o Espiritismo em 1865e a Gênese, os Milagres e as Predições em 1868.Manteve-se à frente da Societé D`Études Spirites, além de escrever outros livros e artigos para a Revista Espírita, até o seu desencarne em 31 de março de 1869, aos 65 anos de idade. Em seu túmulo está escrito: "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei.